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Uma mensagem provocante

Uma mensagem provocante: A concretização da palavra e do sofrimento no apostolado do CVS
Debrucemo-nos sobre o texto de Col 1, 24, a célebre expressão de cumprimento referida aos sofrimentos de Cristo e do apóstolo, centrando a atenção no contexto oferecido pela Epístola. Consideremos não só toda a secção dos versículos 24-29, mas também quanto precede a parte do nosso texto ou seja o hino cristológico 1, 15-20.

Tal atenção permite-nos compreender o texto em análise dentro do grande tema da Epístola aos Colossenses: a reconciliação. “Depois que o hino nos remeteu programaticamente para a Cruz de Cristo, os vv. 14-29, mostram que a realização deste mistério está ligada ao serviço apostólico, à pregação e ao empenhamento pessoal no sofrimento” . À comunidade dos cristãos, desejosa por compreender como poderá tomar parte na grande obra de Cristo (a reconciliação), é indicada a Palavra do Evangelho, força divina para a salvação dos crentes (cf. Rm 1, 16). O texto de Col 1, 24-29 indica assim “a interiorização teológica do serviço apostólico. Toda a vida do apóstolo é uma representação pessoal da reconciliação realizada em Cristo” .

O reenvio para a dimensão interior abre-nos um primeiro espaço de releitura segundo a espiritualidade própria do CVS. Consideremos o aspecto da “tenda interior” como expressão qualificada de uma interioridade profunda e viva, capaz de gerar acções coerentes e conformes. Temos assim dois importantes elementos de referência: a tenda interior e a actividade apostólica como exigência para a sua necessária realização.

Há um outro elemento a colher como referência indispensável à nossa reflexão sobre Col 1, 24. Trata-se de um ponto central ao texto e é a expressão do v. 27: “a imensa riqueza da glória deste mistério entre os gentios: Cristo entre vós, a esperança da glória”. É este o mistério antes escondido e agora plenamente revelado.

Consideremo-lo como um ponto central para compreender o ministério de Paulo e também o nosso apostolado. “É a Ele que anunciamos” recorda o texto da Carta (v. 28-29) “É para isso mesmo que eu trabalho, lutando com a força que Ele me dá e que actua poderosamente em mim”. Há pois a reconciliação de Deus, o seu dom de salvação, actuando em cada um de nós, nas palavras do anúncio, nos sofrimentos, em toda a vida. “Cristo em vós” é também a indicação de uma necessária perspectiva de comunhão.

Aqui colocamos uma outra referência à espiritualidade vivida e ensinada pelo venerável Luís Novarese. A necessária unidade de mente – coração - acção. Há – por assim dizer – uma exigência de comunhão interna à pessoa, o uníssono da mente e do coração. Há a consequente e necessária exigência de unidade também com a acção que, se não exprime a mente e o coração, torna-se hipocrisia e fingimento. Além da comunhão em si, a centralidade existencial e teológica do “Cristo em vós” exige uma profunda comunhão com Cristo e a procura contínua da comunhão com os outros.

Para este quadro, em que colocamos a reflexão sobre Col 1, 24, podemos também reconduzir o dinamismo da “lectio divina”.

Consideremos o espaço da tenda interior como lugar de escuta da Palavra, assimilada e radicada no íntimo, capaz de gerar coerentemente o “percurso” unitário que atravessa mente e coração para se exprimir na acção. Consideremos a nossa acção apostólica concreta como êxito necessário (“actio”) no caminho da lectio divina, o momento conclusivo e fecundo a atingir através dos momentos da leitura – meditação – oração – contemplação.

No texto de Col 1, 24-29, há dois verbos com a mesma raiz “PLE” (em grego πλή) no v. 24 e no v. 25. Estão presentes também na tradução italiana:
•    “dou cumprimento ao que, dos padecimentos de Cristo, falta na minha carne, em favor do seu corpo que é a Igreja” e
•    “a missão que me foi confiada por Deus para convosco de levar ao cumprimento a palavra de Deus”.

A reconciliação de Deus, a obra da salvação, realiza-se em toda a vida do crente. Em particular o nosso texto põe em estreita relação estes dois particulares cumprimentos da obra de Cristo em nós: a palavra e o sofrimento. Ambos estão orientadas em favor dos outros, “em favor da Igreja”, “para convosco”.

São dois aspectos da missão apostólica do anúncio e testemunho da Palavra do Evangelho, qualificando-a no signo da totalidade (o cumprimento) e do concreto físico e pessoal (a carne). Compreende-se agora como “aquilo que ainda falta”, aquilo que Paulo deve levar a termo, seja o seu itinerário, que ele chama “tribulações de Cristo na minha carne”, e que reproduz o de Cristo, no seu modo de viver e de sofrer pelo anúncio do Evangelho e pela sua causa e pela Igreja. “Este serviço carnal, o da totalidade da pessoa (na minha carne), recorda inequivocamente o “corpo de carne de Cristo”, através do qual a reconciliação foi doada”   (cf. Col 1, 22).

É importante sublinhar, a este ponto, quanto é vital e profunda a dimensão corpórea do dom. “A cada cristão é pedido que se torne o próprio rosto – o elemento mais personalizante do corpo –, realizando aquela unicidade criada e querida por Deus, e tudo isto em referência ao homem completo (cf. Ef 4, 13), Jesus Cristo. A imagem e semelhança com Deus encontram na corporeidade, o seu cume. De resto, toda a experiência da salvação, da criação à encarnação até à ressurreição da carne tem o seu centro no corpo: “Caro cardo salutis”, “A carne é o eixo da salvação” (Tertuliano, Sobre a ressurreição dos mortos 8,2) […].

O caminho de Deus em direcção ao homem, desde o acto da criação e através de toda a história da salvação, é o contínuo tender de Deus para a corporeidade: “o fim de toda a acção de Deus é a corporeidade”, afirmou o teólogo Friedrich Oetinger. “Nós fomos santificados por meio da oferta do corpo de Cristo”, prossegue a Carta aos Hebreus (Heb 5, 10), ou seja, a salvação não é obtida de Cristo mediante a via religiosa da economia sacrificial, mas pela via existencial do dom, do amor e da oferta de si que acontece no corpo.

Enfim, no Verbo feito carne (cf. Jo 1, 14) o corpo é o património comum de Deus e do homem”4. Corporeidade, então, como dimensão totalizadora da pessoa humana envolvida no dom de si mesma, no cumprimento sofrido da Palavra, na reconciliação de todas as coisas em Cristo Jesus.

A este aspecto reconduzimos também, com as palavras de João Paulo II (Salvifici Doloris nº 24), o elemento essencial do amor. O texto é em si mesmo um comentário do célebre versículo de Col 1, 24. “Isto quer dizer, talvez, que a redenção completada por Cristo não é completa? Não. Isto significa só que a redenção, operada pela força do amor satisfatório, permanece constantemente aberta a todo o amor que se exprime no sofrimento humano. Nesta dimensão – na dimensão do amor – a redenção já completada até ao fim, completa-se, num certo sentido, constantemente.
Cristo realizou a redenção completamente até ao fim; ao mesmo tempo, porém, não a encerrou: neste sofrimento de redenção, mediante o qual se realizou a redenção do mundo, Cristo abriu-se desde o início, e constantemente se abre, a todo o sofrimento humano. Sim, parece fazer parte da própria essência do sofrimento redentor de Cristo o facto de que este exija ser constantemente completado”.

A redenção permanece assim aberta a todo o amor que se exprime no sofrimento humano. São estes, totalidade e amor, os elementos que qualificam o serviço do apostolado como dom de salvação. Entendemos então quanto oportunamente o CVS se qualifique ao considerar a pessoa como sujeito activo e responsável pela obra de evangelização e de salvação. Qualificação expressa pelo estatuto típico do CVS no parágrafo que descreve os associados: “Toda a pessoa, consciente dos seus empenhos baptismais, é sujeito activo e responsável pela actividade desenvolvida pelo CVS. Empenha-se directamente na tarefa missionária de evangelizar os seus irmãos, apoiando-os no caminho de crescimento humano e cristão, em direcção àquela plenitude de vida e de alegria a que cada homem aspira”.

Tal elemento tem em si um virtuoso reflexo comunitário. A verdade do “Cristo em vós”, reconhecido como elemento central no texto Paulino, exige com particular força que a realidade qualificante do próprio serviço apostólico seja também para outras dimensões características: o grupo e a própria associação. Também o pequeno grupo e toda a Associação CVS, em todos os seus elementos, são chamados a manter vivo o sentido de “sujeito activo e responsável” contrastando com força passividades, inércias, fragmentações, preguiças.

A reflexão sobre o texto da Carta aos Colossenses 1, 24-29 leva-nos a considerar a Palavra e Actividade da Cruz (cf. 1Cor 1, 18-31) como uma grande síntese para o apostolado do CVS.
Reconheçamos cada pessoa que sofre como “lugar” que em virtude da encarnação, paixão, morte e ressurreição, foi habitado profunda e integralmente por Cristo. Cada sofrimento é pois ocasião de comunhão com Deus, carne, na qual completa a alegre, activa e responsável, reconciliação de toda a existência. O anúncio próprio do CVS é provocante. Não se conforma diante de qualquer resistência. Vê o seu horizonte só quando cada pessoa vence a escravidão do sofrimento e age na liberdade dos Filhos de Deus, desenvolvendo de modo maduro a sua identidade de pessoa amada e amante.

Uma pergunta exigente e uma resposta totalizadora são, com efeito, os elementos que encontramos na espiritualidade mariana colhida pelo venerável Luís Novarese nas aparições de Lourdes e de Fátima. Uma visão do mundo conforme a lógica das bem-aventuranças evangélicas. Os pobres, aqueles que não encontram consideração e são marginalizados, são os guardas misteriosos do lugar em que se manifesta a potência de Deus. Os débeis são os espaços abertos que recebem e partilham a salvação.

A mensagem que os associados do CVS são convidados a difundir não é consolatória mas provocante. Há em si aquela intensidade, na verdade provocante, que encontra eco nos ardores marianos de S. Luís Maria de Montfort. No número 59 do “Tratado da Verdadeira Devoção” após uma intensa descrição das elevadíssimas características dos autênticos devotos de Maria, conclui: “Sabemos, enfim, que serão verdadeiros discípulos de Jesus Cristo, que seguirão as pegadas da sua pobreza, humildade, desprezo do mundo e caridade, ensinando o estreito caminho de Deus na pura verdade, segundo o Santo Evangelho e não segundo as máximas do mundo, sem se preocupar nem fazer acepção de pessoas, sem poupar, escutar nem temer nenhum mortal, por poderoso que seja. Terão na sua boca a espada de dois gumes da Palavra de Deus; trarão aos ombros o estandarte sangrento da Cruz, o Crucifixo na mão direita, o Terço na esquerda, os Sagrados Nomes de Jesus e Maria no coração, e a modéstia e mortificação de Jesus Cristo em toda a sua conduta”.

Palavra e sofrimento, também na vigorosa descrição monfortina, na cruz que é sinal de vida, árvore sempre fecunda de alegria pascal.

Luciano Ruga, sodc