|
Juntos com o CVS |
Juntos, n. 78 - 2003 |
Um Guia que continua UMA INTERNACIONALIDADE SEM BARREIRAS A união mundial dos doentes, entre utopias e metas inevitáveis (Luciano Ruga, sodc) Entre os ensinamentos confiados por Mons. Luís Novarese com expressões concisas e eficazes, existe uma indicação que assume particular importância nesta fase histórica do desenvolvimento do Centro Voluntários do Sofrimento. Querendo indicar o horizonte comum ao desenvolvimento de uma espiritualidade e de um apostolado dentro da catolicidade eclesial, o fundador do CVS empregou a frase: “união mundial dos doentes”. Em 1965, Mons. Novarese avaliou e apresentou ao Santo Padre a vontade de dar vida a uma iniciativa em tal sentido. O projecto referia-se à reunião, por um programa comum, das organizações que trabalhavam com os doentes. As singulares entidades manteriam nome e finalidades próprias, abrindo-se a um diálogo recíproco, construtivo e competente. A resposta expressa pela Santa Sé (com carta da Secretaria de Estado) foi positiva, quanto à atenção a dar, mas prudente ao adiar a sua execução, considerada inoportuna nos tempos e modos propostos, tendo em conta as numerosas entidades e organismos internacionais católicos já existentes. A instância de internacionalidade permaneceu aberta a futuros desenvolvimentos e a novos entendimentos, alimentada por numerosas referências oferecidas em tal sentido por discursos e cartas sucessivamente endereçados ao CVS pelos Sumos Pontífices. Só três anos depois (26 de Maio de 1968) por ocasião do vigésimo aniversário de apostolado, Paulo VI definia a iniciativa apostólica do CVS “finalizada a transformar em valor cristão o sofrimento e a estabelecer vínculos de união organizativa e espiritual aos nossos doentes”. A presença de uma boa representação de inscritos provenientes do Cantão Ticino (Suiça) reforçou aquela leitura internacional, postulada pelo aspecto organizativo das actividades do Centro, que permaneceu entre as atenções de Mons. Novarese até 1983.
LECTIO: PRIMEIRO RETIRO Vocação de Abraão (Luís Miranda) Ao meditarmos qualquer texto que nos fale acerca de uma vocação há sempre uma questão que se nos coloca: e eu? O texto bíblico para o nosso retiro mensal apresenta-nos a vocação de Abraão. Por tudo o que já lemos ou ouvimos falar em encontros, retiros, sabemos que Abraão é um dos patriarcas de Israel e é o nosso Pai na fé, ou seja, o primeiro a responder afirmativamente ao projecto de Deus. Para além de tudo isto, que já não é pouco, o que é que faz deste homem uma vocação, um homem tão especial? É olhando o texto, e vendo os desafios que Deus coloca a Abraão que nós percebemos a grandeza da resposta de Abraão. O desafio que Deus lhe coloca é claro: deixa a tua terra... e vai! O convite de Deus é exigente. Deixar a terra não é simples, ela é o lugar onde habitamos, é o nosso passado, os nossos costumes, e tantas outras coisas; por outro lado o desafio é também o de deixar a família, que para nós é sempre sinal de segurança, conforto, é o nosso porto seguro; mas Deus pede ainda mais a Abraão, pede-lhe que deixe a casa de seu pai, isto é, a sua pátria, e com ela tudo o resto: religião, tribo,...e Deus faz-lhe uma promessa que se cumprirá só no futuro. O que é pedido a Abraão é um despojamento total para se fazer ao caminho, despojar-se de tudo para se fazer peregrino.
A VIDA NUMA PÁGINA …Em diálogo com Pe. Néo… (Roby Guastamacchia, sodc) Cada vida que se encontra tem dentro de si mesmo um “tesouro escondido”, que pode dar riqueza a quem tem a coragem de abrir o próprio coração e ler a mensagem que ela quer transmitir. A história de Pe. Néo quer ser para cada um de nós uma nova luz na nossa caminhada de realização humana e cristã. «Os quatro primeiro anos vividos no meio daquele povo marcado pelo sofrimento, são os mais significativos da minha vida, marcados por muito sofrimento e desafios, mas também, por muita alegria» - Quais foram os momentos mais fortes para o seu caminho de discernimento vocacional? Um dos momentos mais fortes e decisivos do meu discernimento vocacional foi quando senti e percebi que Deus de facto me chamava. Então veio o dilema: “aceitar ou rejeitar”; pois, como leigo estava muito empenhado: coordenava a catequese do meu sector, ajudava na formação de catequistas, ajudava na liturgia. Quanto ao futuro estava todo encaminhado. Há quatro anos que namorava a jovem Anita de boa índole e de boa família, ela era catequista na comunidade e o matrimónio já estava marcado! | MISSÃO EM FÉRIAS OU FÉRIAS DE MISSÃO? (Anna Maria Cipriano) Férias! Tão desejadas férias! É tão grande o desejo do repouso prolongado do período de Verão, que algumas sondagens afirmam que muitas pessoas sofrem de “Stress de férias”. Não se consegue dar rendimento no trabalho ou nas actividades diárias porque se está à espera das férias! É bonito, não é? A mim, ao contrário, parece-me interessante a perspectiva de viver também este tempo de repouso como uma missão. De facto, se conseguimos permanecer vigilantes na “escola” de Maria, havemos de aperceber-nos que, também as férias podem ser uma oportunidade de anúncio. Variadas situações e encontros não programados hão-de fazer-nos reconhecer que a espera do homem não conhece repouso.
Igreja e sociedade O SANTO DO ANO ZERO (Filippo Di Giacomo) O Santo que protege a Europa, nasce em Núrsia por volta de 480, chama-se Bento. Por toda a sua vida escondeu-se dos olhos do mundo e os seus passos nunca o afastaram do vale de Aniene e dos penhascos áridos de Montecassino. Todavia, a Igreja considera-o um dos seus “Padres” e os mosteiros nascidos da sua experiência, as abadias beneditinas, têm acompanhado a história civil do Ocidente desde os “séculos obscuros” até aos nossos dias. O paradoxo é só aparente. Enquanto Bento fugia em Deus, o mundo continuava a girar e a história de Roma completava-se. Porquanto seja arriscado dividir a história em períodos, não é arbitrário afirmar que entre o nascimento e a morte de Bento, por volta de 547, surge a passagem do crepúsculo do mundo antigo àquela obscuridade que precedeu os alvores da civilização medieval. É o “ano zero” da Europa. Os últimos sinais do governo imperial perdem-se nas estruturas da nascente Roma papal. Três novas gerações (a romano-bárbara, a germano-eslava e a húngara) forneceram, prepotentemente, a base demográfica necessária para atingir e ocupar os limites geográficos do continente. E numa Europa que a custo aprende a encontrar-se a si própria, Bento não renega a antiga sabedoria da sua cultura romana e reafirma a hierarquia dos valores, o princípio da ordem, o respeito pela autoridade e o primado da lei.
O DISTÚRBIO POR ATAQUES DE PÂNICO (Felice Di Giandomenico) Quando se fala de ataques de pânico referimo-nos a um quadro clínico em que a ânsia se manifesta de modo particularmente violento, envolvendo tanto a esfera psíquica como a esfera física do indivíduo. A característica principal dos distúrbios por ataques de pânico é uma intensa sensação de mau estar misturada com medo, que chega ao terror verdadeiro e próprio; inesperadamente, a pessoa inicia a sentir-se inquieta, procura saídas se se encontra em lugares apinhados, chega a parar se vai ao volante do automóvel. Habitualmente não há sinais premonitores de um início de crise; tudo se manifesta inesperadamente em modo de todo incontrolável e imprevisível. Ao intenso estado de mau estar e medo, juntam-se depois dois sintomas que envolvem todo o organismo causando perturbações que, embora temporárias, aumentam consideravelmente o terror de morrer, de perder o controlo da situação, de poder desmaiar de um momento ao outro em condições desfavoráveis (por exemplo no autocarro).
UMA IDEIA NUMA SIMPLES HISTÓRIA O GRÃO DE MOSTARDA Uma mulher que vivia um grande sofrimento provocado pela morte do filho, foi procurar um sábio para lhe perguntar pedir uma forma de trazer o filho de volta à vida. O sábio, depois de ter analisado a situação, disse-lhe: “Traga-me um grão de mostarda de uma casa onde jamais tenha havido sofrimento; com esse grão eu removerei todo o sofrimento da sua vida”. A mulher começou a busca e logo descobriu que todas as casas tinham o seu próprio drama. Face ao terrível espectáculo dos sofrimentos dos outros, perguntou a si mesma: “Quem pode ajudar e compreender essas pessoas desafortunadas melhor do que eu, que também passo por uma provação?”,…
CVS INTERNACIONAL: OS PRIMEIROS PASSOS NO BRASIL Uma crónica breve e a experiência de um encontro com os doentes de SIDA. Relatas da viagem do Brasil com a qual os Silenciosos Operários da Cruz estão a prosseguir a realização do “Projecto Américas”, que deve levar ao estabelecimento de um núcleo comunitário pioneiro na América Latina.
Entre palâcios e favelas Uma zona de colinas e arvoredo circunda o Centro Missionário “José Allamano”, na localidade de Pedra Branca, na parte norte de São Paulo. Os Silenciosos Operários da Cruz aí encontraram a hospitalidade e o precioso acompanhamento oferecido pelos Padres da Consolata. Anteriormente este era um lugar de “favelas”, depois, como normalmente acontece, a situação melhorou e as barracas foram deslocadas para fora, dilatando assim a periferia. (Luciano Ruga)
Um dia no “Lar Betânia” (Anna Maria Cipriano) Na pequena aldeia de Betânia, moravam três grandes amigos de Jesus: Maria, Marta e Lázaro. Naquele pequeno Lar, Jesus dizia sentir-se muito bem: Lázaro era o seu “Amigo do coração”; Maria, aquela que lhe enxugou os pés com os cabelos; Marta sempre prestimosa para que nada lhe faltasse. E quando a dor chegou a este Lar, por causa da morte de Lázaro, Jesus revelou-se como vencedor da morte: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em mim, mesmo que morra, viverá” (Jo. 11,25). Podemos encontrar muitas analogias entre a Betânia bíblica e o Lar onde os missionários da Consolata acolhem pessoas doentes de SIDA. A escolha do nome «Lar Betânia» declara expressamente a intenção de reencontrar aqueles valores, e o encontro com as pessoas envolvidas no projecto confirma que o nome é pertinente. Na verdade, a pequena comunidade do lar Betânia é testemunho vivo da fé e do serviço de Marta, das dúvidas e do amor de Maria e da sincera amizade de Lázaro com Jesus
CVS AO VIVO ÁFRICA No ano passado, a associação Silenciosos Operários da Cruz (SODC) iniciou a sua primeira missão em África. Desde o mês de Setembro de 2002, a Irmã Anna Maria Manganiello e a Irmã Godelive Kalenga Tubembe estão a operar nos Camerões, no Centro Belém de Mouda, em colaboração com os missionários do Pontifício Instituto Missionário Estrangeiro (PIME). Fundado para dar resposta aos problemas do trabalho, saúde, educação e assistência que molestam a região, o Centro Belém está a tornar-se um ponto sob o qual fazer girar muitas metas no campo sanitário, social, apostólico e pastoral. O empenho, que se refere em primeiro lugar ao sector sócio-reabilitativo dos SODC, suscita grande interesse para os programas de expansão internacional do CVS. São compromissos de grande responsabilidade, onde o fascínio pelo desafio não pode ser dissociado das dificuldades concretas que a Associação encontra: racionalizar disponibilidades pessoais e recursos materiais.
EXISTEM GUERRAS ENTRE POBRES E RICOS (Attilio Giordano) Existem guerras entre pobres e ricos. Um dos maiores jornalistas vivos, o polaco Ryszard Kapuscinski, no seu livro publicado recentemente “A primeira guerra do futebol e outras guerras dos pobres” (Editora Feltrinelli), conta que em África, nos anos cinquenta e sessenta, os pobres, para falarem de si, deviam derramar muito sangue. Hoje, enquanto toda a informação ilumina com reflectores potentes a guerra USA – Iraque, há mais de quarenta guerras no mundo que se desenrolam no escuro mais absoluto da noite sem notícias.
QUEM PODE ADERIR À LIGA SACERDOTAL MARIANA? (António Giorgini, sodc) Durante uma das Peregrinações a Lourdes, um sacerdote que participava pela primeira vez, reconhecendo a iniciativa como uma feliz descoberta, expressou o desejo de poder aderir ao sector da LSM do Centro Voluntários do Sofrimento. A resposta dada naquela ocasião particular é agora apresentada a todos os leitores, documentando quanto deve ser conhecido relativamente à adesão, pelos sacerdotes, da Associação.
A PROPÓSITO DO ANO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA (Giovan Giuseppe Torre, sodc) Um senhor de meia-idade com canadianas para uma fulana que com prepotência lhe passava à frente na fila para os táxis: «Minha senhora, mas não vê que sou deficiente?». Ela, batendo a porta do táxis retorquiu: «Bem, no fundo todos somos um pouco deficientes». Infelizmente esta não é apenas uma frase de má-criação, mesmo se autêntica. Se quisermos basta experimentar. Levai a passear uma pessoa em cadeira de rodas, ou mesmo um carrinho de bebé, e compreendereis quanto um simples passeio para peões se torna um obstáculo. Mas as piores barreiras, segundo um semanário dos Estados Unidos “Newsweek”, não são arquitectónicas: são psicológicas. Mais precisamente, encontram-se na família que tem em casa pessoas com deficiência. Segundo um inquérito realizado pela revista “Newsweek” é muito irredutível e maléfico o sentimento de vergonha, e sem dúvida o pior obstáculo existente sobre a estrada da integração. O problema é que enquanto se celebra o Ano Europeu da pessoa com deficiência, Portugal encontra-se no antepenúltimo lugar (à frente da Itália e da Grécia) na lista de Países que dá igual oportunidade para quem tem um déficit físico. Um País que faz projectos de estádios de futebol faraónicos tem dificuldade em aplanar um pequeno degrau de forma a tornar acessível um local de trabalho. Só para dar um exemplo, em Itália para poder subir aos serviços do maior hospital ortopédico de Milão, é necessário subir por uma íngreme escadaria.
SÃO MARTINHO DE LIMA (Anna Maria Manganiello, sodc) No livro de baptizados da Igreja de São Sebastião em Lima, no Perú, lê-se que Martinho, nascido em 9 de Dezembro de 1579, é filho de Ana Vasquez e de pai incógnito. Na realidade todos sabiam que o pai era João de Porres, um nobre cavaleiro espanhol da Ordem de Alcântara, alto funcionário do Rei de Espanha. As duras leis dos homensJoão de Porres encontrava-se no Panamá, apaixonou-se por Ana Vasquez, uma belíssima jovem, filha de escravos de origem africana, e desposou-a. Ao nascimento do primeiro filho, a mãe teria desejado dar-lhe o sobrenome paterno, mas João, ainda que amasse ternamente mãe e filho, disse-lhe que não era possível. O pequeno, não sendo propriamente negro, também não era branco: era mulato. Reconhecendo-o como filho legítimo, teria criado um obstáculo à sua carreira política. A mesma recusa foi reservada à irmãzinha de Martinho, nascida dois anos mais tarde e chamada Joana em honra do pai. DEFICIÊNCIA E DIREITO Deficiência e reabilitação (Ana Filomena Marques Rosa) Em todo o mundo e a todos os níveis da sociedade há pessoas com deficiência. O número total de pessoas com deficiência no mundo é muito grande e está a aumentar. Por isso, cada vez mais os Estados se preocupam com estas pessoas que fazem parte da Sociedade e que devem ser integradas nela em condições de igualdade, respeitando as suas limitações e tentando superá-las da melhor forma possível. |
Ultimo aggiornamento 2005/12/06