Centro Voluntários do Sofrimento

EM TODAS AS SUAS CAMINHADAS.

O Êxodo: guardar a Aliança, viver a comunhão.


Um caminho espiritual e apostólico da pessoa doente dentro da comunidade cristã

Fichas para os encontros de grupo ano 2004-2005


     

Ficha 7

   

O rosto de Jahvé (Ex 33, 1-23)

 

Na escuta de ti mesmo

Somos um povo de cabeças duras; somos pessoas com a cabeça dura e também com o coração duro. Porquê tanta dureza dentro e fora de nós? As palavras e os pedidos dos outros (mesmo a de Deus) não podem penetrar e tornamo-nos impermeáveis. Para poder caminhar com Deus, nos Seus caminhos, acompanhados pelo Seu rosto, precisamos encontrá-Lo na verdade: face a face, na pobreza e na itinerança duma tenda, não na dureza de muros que construímos para nos defender.

 

Na escuta da Palavra

«1O Senhor disse a Moisés: “Vai, parte daqui com o povo que fizeste sair do Egipto; ide para a terra que prometi a Abraão, a Isaac e a Jacob dizendo: Hei-de dá-la à tua posteridade. 2Eu enviarei um anjo à tua frente e expulsarei o cananeu, o amorreu, o hitita, o perizeu, o heveu e o jebuseu. 3Ide para essa terra, onde corre leite e mel. Mas Eu não irei convosco, porque sois um povo de cerviz dura, e poderia aniquilar-vos pelo caminho”. 4Ao ouvir estas duras palavras, o povo ficou mergulhado em tristeza e ninguém ousou colocar os seus adornos. 5O Senhor disse então a Moisés: “Diz aos filhos de Israel: Sois um povo de cerviz dura. Se me encontrasse, um instante apenas, no meio de vós, aniquilar-vos-ia. Deponde, pois, todos os vossos ornamentos, e verei depois o que vos devo fazer”. 6Os filhos de Israel despojaram-se dos seus adornos, ao partir do monte Horeb. 7Moisés pegou na tenda e foi colocá-la a certa distância do acampamento. Deu-lhe o nome de tenda da reunião. E todos aqueles que desejavam consultar o Senhor iam à tenda da reunião, fora do acampamento. 8Quando Moisés se dirigia para a tenda, todo o povo se levantava, permanecendo cada um à entrada da própria tenda, para o seguir com os olhos, até Moisés entrar na tenda. 9Logo que Moisés entrava na tenda, a coluna de nuvem descia e mantinha-se à entrada, e o Senhor falava com Moisés. 10E, ao ver a coluna de nuvem que permanecia à entrada da tenda, todo o povo se levantava e se prostrava, cada um à entrada da sua tenda. 11O Senhor falava com Moisés, frente a frente, como um homem fala com o seu amigo. Moisés voltava, em seguida, para o acampamento; mas Josué, filho de Nun, o seu servidor, homem ainda novo, não se afastava do interior da tenda.

12Moisés disse ao Senhor: “Tu dizes-me: Conduz este povo; mas não me dás a saber quem indicarás para me acompanhar. E, contudo, disseste-me: Eu conheço-te pelo nome e tu alcançaste graça aos meus olhos. 13Se é verdade que alcancei graça aos teus olhos, revela-me as tuas intenções e que eu te conheça, a fim de realmente alcançar graça aos teus olhos. Considera que esta gente é o teu povo”. 14E Deus respondeu: “Eu mesmo irei adiante de ti, e dar-te-ei descanso”. 15Moisés disse: “Se Tu mesmo não vieres connosco, não nos obrigues a partir deste lugar. 16Como havemos de saber que eu e o teu povo alcançámos graça aos teus olhos? Para isso, não será indispensável que caminhes connosco? É a única forma de nos distinguirmos, eu e o teu povo, de todas as nações da terra”. 17O Senhor retorquiu: “Farei o que me pedes, porque alcançaste graça aos meus olhos, e conheço-te pelo nome”. 18Moisés disse: “Mostra-me a tua glória”. 19E Deus respondeu: “Farei passar diante de ti toda a minha bondade, e proclamarei diante de ti o nome do Senhor. Concedo a minha benevolência a quem Eu quiser, e uso de misericórdia com quem for do meu agrado”. 20E acrescentou: “Mas tu não poderás ver a minha face, pois o homem não pode contemplar-me e continuar a viver”. 21O Senhor disse: “Está aqui um lugar próximo de mim; conservar-te-ás sobre o rochedo. 22Quando a minha glória passar, colocar-te-ei na cavidade do rochedo e cobrir-te-ei com a minha mão, até que Eu tenha passado. 23Retirarei a mão, e poderás então ver-me por detrás. Quanto à minha face, ela não pode ser vista”» (Ex 33, 1-23).

 

Pontos de lectio sobre o texto

O povo de cerviz dura fica surpreendido e pergunta-se se o Senhor se cansou do Seu povo e dos erros deles, se a súplica de perdão vai encontrar um Deus surdo, se deve renunciar para sempre à esperança de que o Senhor caminhe com o povo, nesse caso como continuar a caminhada e com o apoio de quem… Aqui quer-se responder a essas questões ao falar da presença do Senhor durante a caminhada, na nuvem, na tenda, sobre a montanha e na relação com o Seu servo Moisés.

Os vv. 1-6 apresentam o afastamento de Deus. O povo reage fazendo luto, e assim expressa a sua tomada de consciência do pecado cometido. Não é uma dor momentânea, mas uma atitude prolongada, onde Israel demonstra que ama Deus.

Moisés como interlocutor privilegiado de Deus, a cada etapa colocava a Tenda da reunião a certa distância do acampamento, porque Deus tinha tomado uma certa distância do povo contaminado pelo bezerro de ouro. Mas isso quer dizer que Deus não abandonou o povo. E Moisés continua a interceder, entrando frequentemente na Tenda para falar «frente a frente».

«Revela-me as tuas intenções»: encorajado pela intimidade com Deus, mas também pela mudança de atitude do povo, Moisés pretende que Deus adopte o seu ponto de vista. Moisés quer ser confirmado na sua missão e como prova pede a Deus que lhe revele as Suas intenções. A resposta positiva do Senhor exprime uma novidade: «Eu mesmo irei adiante de ti». O próprio Deus estará a guiar o Seu povo, sem nenhum anjo. Esse consentimento é sinal de perdão e significa restauração da comunhão cortada pelo pecado do bezerro de ouro.

 

Avaliação e programação do apostolado.

O povo experimenta a distância de Deus, que lhe soa como a uma punição. No início, a recusa que Deus manifesta em querer guiar directamente o povo, serve para fazer tomar consciência aos israelitas da sua «dura cerviz» e do seu pecado; mas acaba por se tornar uma forma de protecção ao povo. O Senhor constata o afastamento dos israelitas que escavaram um fosso entre si e eles, obrigando-O a esconder a Sua face e a deixá-los aos caminhos dos seus corações. Essa distância divina, também nós a experimentamos frequentemente no silêncio, no sono e na indiferença que parece que o Senhor nos reserva. Nós procuramos o colóquio, o amparo, o encorajamento… e o Senhor não fala, cala, não intervém para nos confortar. Mas essa distância diz que o Senhor é novidade está sempre em movimento. É o movimento que inaugura o novo evento da ressurreição. Também Jesus na cruz se encontra na escuridão mais profunda e vive-o por nós, para nos ajudar a perceber que, mesmo quando estamos nessa escuridão, não está tudo perdido, aliás é o início da salvação. A nossa certeza é que, mesmo nas provações da vida, o Senhor é nosso mestre e nós somos chamados a viver como discípulos a experiência do sofrer. Confiando-se ao Pai, Jesus ensina-nos que não há experiência tão desesperante que nos impeça de ser salvos. Ensina-nos que, mesmo se Deus responde com o silêncio às nossas orações, fica sempre connosco com a ternura dum Pai, e não permitirá que nenhum dos Seus filhos se perca. Unamos a nossa oração àquela sofredora de Jesus: Pai, cumpra-se em mim não a minha mas a Tua vontade. Dá-me a força de Te amar mesmo quando ficas calado, de resistir ao maligno com a força do Teu Espírito.

«Via da Igreja é o homem sofredor»: assim se exprime a Salvifici Doloris, documento que escreveu o Santo Padre João Paulo II, sobre o valor salvífico da dor humana. Perguntemo-nos, com Moisés, que caminho nos indica o Senhor para o nosso Grupo de Vanguarda.