Centro Voluntários do Sofrimento

EM TODAS AS SUAS CAMINHADAS.

O Êxodo: guardar a Aliança, viver a comunhão.


Um caminho espiritual e apostólico da pessoa doente dentro da comunidade cristã

Fichas para os encontros de grupo ano 2004-2005


     

Ficha 6

   

A aliança rectificada (Ex 24, 1-11)

    

Na escuta de ti mesmo

Não nos deixemos atemorizar pela necessidade de concluir a Aliança através do derramamento de sangue: «Eis o sangue da aliança». São as mesmas palavras que utilizou Jesus quando se nos deixou na Eucaristia: «Eis o sangue da nova Aliança». Derramar o sangue foi real para o Filho de Deus. Para nós hoje é só um símbolo que exprime, porém, uma realidade viva: estar disponíveis até ao fim, na fidelidade. Estar disponíveis a perder a vida, mas não a comunhão com Deus.

 

Na escuta da Palavra

«1E Ele disse a Moisés: “Sobe ao encontro do Senhor, tu, Aarão, Nadab, Abiú e setenta dos anciãos de Israel, e prostrar-vos-eis de longe. 2Moisés aproximar-se-á sozinho do Senhor. Eles não se aproximarão, e o povo não subirá com ele”. 3Moisés veio e relatou ao povo todas as palavras do Senhor e todas as normas, e todo o povo respondeu a uma só voz, e disse: “Poremos em prática todas as palavras que o Senhor pronunciou”. 4Moisés escreveu todas as palavras do Senhor. Levantou-se de manhã cedo e construiu um altar no sopé da montanha, e doze estelas pelas doze tribos de Israel. 5E enviou os jovens dos filhos de Israel, e ofereceram holocaustos e sacrificaram ao Senhor novilhos como sacrifícios de comunhão. 6Moisés tomou metade do sangue e colocou-o em bacias, e metade do sangue espalhou-o sobre o altar. 7Tomou o Livro da Aliança e leu-o na presença do povo, que disse: “Tudo o que o Senhor disse, nós o faremos e obedeceremos”. 8Moisés tomou o sangue e aspergiu com ele o povo, dizendo: “Eis o sangue da aliança que o Senhor concluiu convosco, mediante todas estas palavras”.

9Moisés subiu com Aarão, Nadab e Abiú, e setenta dos anciãos de Israel. 10Contemplaram o Deus de Israel. Sob os seus pés, havia como que um pavimento de safiras, tão puro como o próprio céu. 11E Ele não estendeu a mão contra estes eleitos dos filhos de Israel, os quais contemplaram a Deus e depois comeram e beberam» (Ex 24, 1-11).

 

Pontos de lectio sobre o texto

Aqui é-nos apresentada a Aliança proposta por Deus ao povo de Israel, com duas cenas centrais: o encontro com Deus sobre a montanha (vv. 1-2 e 9-11) e o rito de sangue no sopé da montanha (vv. 3-8). No rito destacam-se, pela sua função determinante, o Livro e o sangue, os dois especificados como «da Aliança».

«Moisés escreveu todas as palavras do Senhor»: são elas que constituem o conteúdo do «Livro da Aliança» que será lido em voz alta no dia seguinte, durante o rito. A novidade decisiva está na escrita daquelas normas, até então transmitidas só oralmente. Aquilo que tinha sido expressado na proposta «se ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança» (Êx 19, 5-6), agora, depois do compromisso tomado livremente pelo povo, é fixado e funciona como testemunho.

No dia seguinte, Moisés constrói no sopé da montanha um altar com doze estelas. O altar representa o Senhor, enquanto as doze estelas representam as doze tribos de Israel. O holocausto era um sacrifício durante o qual a vítima era totalmente queimada e tudo subia do altar para o céu em honra da divindade. Era um acto que significava o reconhecimento do domínio do Senhor sobre a vida. Também o sacrifício de comunhão era um sacrifício onde só uma parte da vítima vinha queimada em honra de Deus, enquanto o resto era consumido, durante um banquete, dos oferentes. Era um acto que exprimia a plenitude de comunhão e a confirmação do laço de aliança entre o oferente e Deus. Os dois sacrifícios serviam para fornecer o sangue, sinal da mesma vida, que tornava eficaz o rito.

A conclusão da aliança prevê: Moisés que toma o Livro da Aliança e «leu-o na presença do povo»; o livre consentimento do povo e a aspersão de sangue. Essa aspersão diz a consanguinidade e a parentela do povo com o Senhor, mas também a consagração de todo o povo numa obediência especial à vontade de Deus. O sangue e o Livro significam uma vida em total comunhão com o Senhor.

 

Avaliação e programação do apostolado.

Finalmente Israel é consagrado como partner em comunhão com o Senhor. O Livro e o sangue da Aliança coincidem na representação do mesmo dom de vida. Ao ler atentamente o texto, podemos notar a mesma sequência da nossa Missa: há a leitura do Livro da Lei (= liturgia da Palavra); seguida do consentimento do povo (= o nosso Credo); por fim a aspersão do sangue (= liturgia Eucarística). A Eucaristia, nossa Páscoa Dominical, é a nova e eterna aliança que funda o pacto perfeito entre Deus e os homens, um pacto que comporta não somente a herdade da promessa, mas o mesmo Deus como herdade. «Tudo o que o Senhor disse, nós o faremos e obedeceremos». O nosso apostolado desafia-nos a viver plenamente essa adesão a Deus. Não viver na superficialidade os sofrimentos, mas assumi-los e oferecer a vida com amor. O vértice da vida cristã é o de saber oferecer com amor e com alegria o nosso sofrer. Perguntemo-nos se vivemos a Missa Dominical como o vértice do autêntico sacrifício, o memorial Pascal da Nova Aliança e o banquete de partilha.

Trata-se então, de rever que provações vivemos até agora.

Provações:

- físicas, quando não tivemos muita saúde;

- psicológicas, em que os outros reparam: formas de cansaço, de esgotamento, de nervosismo…; em que os outros não reparam e que vivemos com fadiga: antipatias, confusões, perturbações…;

- morais, nas quais entramos por nossa causa ou por causa de outros: situações dolorosas, pecaminosas, ou intrigadas…;

- comunitárias: tantas vezes sente-se no ar o aproximar-se de “influências”: não faltam situações em que o mau-humor se propaga e com pouco causa irritação nos outros. Às vezes as “influências” tornam-se verdadeiras tempestades num copo de água.

Coloquemo-nos então diante ao Crucifixo e perguntemo-nos:

- o que é que mais me incomodou nas minhas provações?

- Quais desses provações foi a mais pesada, até me fazer vacilar, até me fazer acreditar já não aguentar mais, até me fazer pensar em fugir?

 

As provações mais pesadas, normalmente, não são aquelas que externamente parecem mais graves, mas sim as que tocam os meus pontos mais delicados e vulneráveis.