Centro Voluntários do Sofrimento

EM TODAS AS SUAS CAMINHADAS.

O Êxodo: guardar a Aliança, viver a comunhão.


Um caminho espiritual e apostólico da pessoa doente dentro da comunidade cristã

Fichas para os encontros de grupo ano 2004-2005


     

Ficha 3

   

A água de Massá e Meribá (Ex 17, 1-7)

 

Na escuta de ti mesmo

Tal como em relação à fome, também se pode ter muitos tipos de sede: de água, de valores, de afecto, de amizade, de amor, de sentido… é necessário perceber do que é que se tem sede, para não andar à procura de bebidas erradas que parecem matar a sede mas que depois nos deixam áridos.

 

Na escuta da Palavra

«1Toda a comunidade dos filhos de Israel partiu do deserto de Sin para as suas etapas, segundo a palavra do Senhor. Eles acamparam em Refidim, mas não havia água para o povo beber. 2O povo litigou com Moisés, e disse: “Dá-nos água para beber”. Disse-lhes Moisés: “Porque litigais comigo? Porque pondes o Senhor à prova?”. 3Ali o povo teve sede de água, e murmurou contra Moisés, dizendo: “Porque nos fizeste subir do Egipto para nos fazer morrer à sede, a nós, aos nossos filhos e ao nosso gado?” 4Moisés clamou ao Senhor, dizendo: “Que farei a este povo? Mais um pouco e vão apedrejar-me”. 5O Senhor disse a Moisés: “Passa diante do povo e toma contigo alguns anciãos de Israel; e leva na tua mão a vara com que feriste o rio, e vai. 6Eis que estarei diante de ti, lá, sobre a rocha no Horeb. Tu ferirás a rocha e dela sairá água, e o povo beberá”. Assim fez Moisés diante dos anciãos de Israel. 7Ele deu àquele lugar o nome de Massá e Meribá, por causa do litígio dos filhos de Israel, e por terem posto o Senhor à prova, dizendo: “Está o Senhor no meio de nós ou não?”» (Ex 17, 1-7).

 

Pontos de lectio sobre o texto

O povo de Israel continuou a sua viagem e cada etapa revelou-se uma provação, devida não aos caprichos do Senhor, mas à sua vontade de oferecer uma bússola para o caminho. Se no deserto o povo não conhece a estrada certa, tem no entanto uma rota precisa: escutar a palavra do Senhor e prestar atenção às suas ordens (cfr. v. 1). O acampamento desta vez encontra-se em Refidim, que significa «apoios», como que a antecipar os vários suportes que serão oferecidos ao povo.

O problema é novamente vital: falta a água. No deserto esta ausência equivale à morte. A diferença em relação à situação em Mara, é que enquanto lá era imprópria para beber, aqui não existe. Tal ausência parece dizer que também o Senhor está ausente da viagem do povo. A sede faz novamente desencadear o protesto no povo, que explode num processo contra Moisés. O verbo «protestar», para além de indicar o descontentamento e a revolta, é também um termo técnico de controvérsia, onde os dois adversários devem resolver a briga sem a intervenção dum terceiro juiz.

A reacção de Moisés é a de quem se sente humilde servo do Senhor, de quem não se pode arrogar os direitos e por isso responde que criticar a sua pessoa é o mesmo que «colocar à prova» o próprio Deus. Tentar Deus significa capturá-lo como refém, chantageando-o pretendendo uma manifestação do seu poder e impondo-lhe prazos. Colocar o Senhor à prova significa inverter os papéis.

 

Avaliação e programação do apostolado.

A pergunta: «Está o Senhor no meio de nós ou não?» engloba todas as perguntas colocadas nos desertos, nas sedes dos momentos mais dramáticos do povo de Israel, mas é também a questão que nos colocamos quando estamos em dificuldade perante o aparente silêncio de Deus. A opção faz-se sempre entre duas atitudes perante a mesma necessidade: protestar contra Deus, como faz o povo, ou então suplicar-lhe como faz Moisés? Queremos seguir o povo que desvirtuou o significado do Êxodo, interpretando-o como caminho para um beco sem saída para a morte, ou queremos seguir Moisés, para quem Deus continua a estar presente e salvífico mesmo na privação?

O empenho apostólico leva-nos a considerar que a rocha «movível» que acompanhava e dessedentava os Israelitas no deserto, é o próprio Cristo. O risco de aprisionar Deus está sempre presente.

Devemos estar prontos a saber reconhecer a presença do Senhor mesmo quando o sentimos distante, sem ter a pretensão de ver sinais que o assegurem. Com segurança podemos afirmar que a provação, como o mistério do sofrimento, são, se calhar, a única realidade que pode quebrar o «sono do espírito». A experiência do povo interpela-nos sobre o onde vamos buscar a água da nossa salvação e a verificar se por acaso as nossas cisternas estão fendidas. A experiência do povo alerta-nos em não cair na presunção de querer resolver os problemas sozinhos, esquecendo uma história em que Deus agiu e revelou o seu amor, ou não nos aperceber das presenças sacramentais do Senhor e dos sinais, talvez não grandiosos, mas reais da sua providência.