Ficha 2
O dom do maná (Ex 16, 1-14)
Na escuta de ti mesmo
Comer pão à fartura, mas estar na condição de escravidão, não é muito entusiasmante. Mas às vezes chega-se a certos compromissos impensáveis e inaceitáveis para evitar o cansaço quotidiano, a atenção que caracteriza um caminho tomado e retomado, o vazio do deserto que é necessário atravessar para atingir uma meta.
Na escuta da Palavra
«1Partiram de Elim e toda a comunidade dos filhos de Israel chegou ao deserto de Sin, que está entre Elim e o Sinai, no décimo quinto dia do segundo mês, após a sua saída da terra do Egipto. 2Toda a comunidade dos filhos de Israel murmurou contra Moisés e Aarão no deserto. 3Os filhos de Israel disseram-lhes: “Quem dera que tivéssemos morrido pela mão do Senhor na terra do Egipto, quando estávamos descansados junto da panela de carne, quando comíamos com fartura! Mas vós fizestes-nos sair para este deserto para fazer morrer de fome toda esta assembleia!” 4O Senhor disse a Moisés: “Eis que vou fazer chover do céu pão para vós. O povo sairá e recolherá em cada dia a porção de um dia. Isto é para o pôr à prova e ver se andará, ou não, na minha lei. 5No sexto dia, quando prepararem o que tiverem trazido, haverá o dobro daquilo que recolhem em cada dia”. 6Moisés e Aarão disseram a todos os filhos de Israel: “Ao cair da tarde reconhecereis que foi o Senhor que vos fez sair da terra do Egipto, 7e pela manhã vereis a glória do Senhor, porque Ele terá ouvido as vossas murmurações contra o Senhor. Nós, porém, o que somos para que murmureis contra nós?”. 8Disse Moisés: “Quando o Senhor vos der esta noite carne para comer, e pela manhã pão com fartura, então o Senhor terá ouvido as murmurações que vós proferistes contra Ele. Nós, porém, o que somos? Não são contra nós as vossas murmurações, mas contra o Senhor”. 9Moisés disse a Aarão: “Diz a toda a comunidade dos filhos de Israel: ‘Aproximai-vos do Senhor, porque Ele ouviu as vossas murmurações’”. 10Enquanto Aarão falava a toda a comunidade dos filhos de Israel, eles voltaram-se para o deserto, e eis que a glória do Senhor apareceu na nuvem. 11O Senhor falou a Moisés, dizendo: 12“Ouvi as murmurações dos filhos de Israel. Fala-lhes, dizendo: ‘Ao crepúsculo comereis carne, e pela manhã saciar-vos-eis de pão, e conhecereis que Eu sou o Senhor, vosso Deus’”. 13À tardinha caíram tantas codornizes que cobriram o acampamento, e pela manhã havia uma camada de orvalho ao redor do acampamento. 14A camada de orvalho levantou, e eis que à superfície do deserto havia uma substância fina e granulosa, fina como geada sobre a terra» (Ex 16, 1-14).
Pontos de lectio sobre o texto
Está presente toda a crise do povo de Israel, ao qual responde o projecto do Senhor. Ao povo que murmura e se lamenta porque quer carne e pão, o Senhor responde saciando-o com codornizes e o maná. O Senhor revela-se e faz-se reconhecer como o Deus do êxodo dos Israelitas, chamados a tornarem-se comunidade.
«A viagem continua»… Imaginemos que nos encontramos lá, junto do povo, na terceira etapa da viagem no deserto. Depois daquela experiência amarga com as águas de Mara e a experiência restauradora no oásis de Elim, o povo deve retomar a marcha, quando explode numa outra crise: a da fome.
«O próprio Senhor intervém», apresentando o seu plano. O Senhor envolve-se de modo total: farei chover pão do céu. E dita algumas regras para a colheita. É uma espécie de teste que o Senhor propõe ao povo para verificar se os israelitas caminham ou não segundo a lei divina.
«Comereis carne… saciar-vos-eis de pão». Esta «chuva de vida», fornecida pelas codornizes que caem no acampamento e de maná, dados respectivamente ao entardecer e ao amanhecer, tornam-se a experiência da contínua presença salvífica do Senhor, em toda a circunstância da própria viagem.
Avaliação e programação do apostolado.
A experiência do apostolado faz eco à importância de comer o «pão». O pão é frequentemente apresentado na Bíblia como sinónimo de vida, para dizer que é um alimento essencial. Significa pois a potencialidade de existir, quer como património material (como bens e recursos económicos), quer como património espiritual (como inteligência e sentido da vida). Comer o pão significa ter uma segurança, uma tranquilidade, pontos de referência em relação ao futuro, exprime uma relação profunda, uma partilha.
A crise da fome caracteriza a nossa crise no caminho de fé e no empenho do apostolado: para algumas pessoas a provação frequentemente se transforma num terramoto que pode esmagar o coração e alimentar ressentimentos em relação a Deus e aos irmãos; para outros, pode tornar-se ocasião para uma verdadeira conversão. Na verdade a provação obriga-nos a olhar para dentro de nós com mais profundidade e a desmascarar as nostalgias do homem velho sempre cheio de exigências, a compreender onde verdadeiramente está o nosso tesouro e, por isso, o nosso coração, ou seja do que é que temos fome.