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Centro Voluntários do SofrimentoENTREGUES
AO SENHOR
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Um caminho espiritual e apostólico da pessoa doente dentro da comunidade cristã Fichas para os encontros de grupo ano 2002-2003 |
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Ficha 9
Recomendação apostólica
À Escuta de ti próprio
Muitas foram as palavras encontradas durante este ano pastoral. Umas poderiam ter sido de melhor qualidade; outras, de censura, talvez pudessem ter sido evitadas. Outras, então, de apreço e de gratidão, poderiam ter sido pronunciadas. E ainda outras mais, as que não quisemos ouvir, poderiam ter sido escutadas.
Escuta, tanto pessoalmente como na comunhão do Grupo, estas palavras; mas ouve-as mesmo e, acima de tudo, oferece aquela única Palavra que pode trazer a salvação – e aí está o segredo para a fecundidade do apostolado.
À Escuta da Palavra
“E agora confio-vos a Deus e à palavra da Sua graça, que tem o poder de construir o edifício e de vos conceder parte na herança com todos os santificados” (Act. 20, 32).
É esta a porção final do discurso que Paulo pronunciou em Mileto, a última recomendação pastoral antes de começar a sofrer a sua paixão. É aqui que encontramos a última palavra da sua vida pública. Por esta razão, ela tem um significado muito especial e sumativo daquilo que o Apóstolo pensava e queria, e de como a Igreja primitiva o representava. Paulo, que falou aos presbíteros da comunidade de Mileto, tem agora que os abandonar e preocupa-se com o que eles farão, com o seu destino. Por seu lado, os presbíteros interrogam-se sobre como levar por diante esta vida em conjunto. E Paulo responde-lhes com esta recomendação e com esta preciosa lembrança para a comunidade.
“E agora”: trata-se duma forma solene e conclusiva que significa o seguinte – pelo que diz respeito à presente circunstância, a vossa situação de desapego de mim, de incerteza quanto ao futuro, de temor pelo que vos acontecerá. Assim, Paulo supõe uma situação anterior, ou seja, o seu ministério na comunidade, o seu afecto por eles e a sua correspondência, os perigos para o futuro e, sobretudo, o seu temor pelo que irá acontecer.
“Confio-vos a Deus”: é uma expressão que nos espanta. Teríamos esperado que lhes recomendasse a fidelidade, a união, a correspondência epistolar, reuniões, dar notícias, de fazer a leitura sagrada…Mas Paulo confia-os a Deus, sublinhando, desta forma, que o futuro e a perseverança deles estão nas mãos de Deus. Paulo, embora preocupado com a comunidade que tanto ama, tem a certeza de que Deus levará avante a Sua obra, sustentá-la-á, iluminá-la-á e a guiará.
“…e à Palavra da Sua graça”: é um modo de dizer “Evangelho”, de manifestar a iniciativa divina e gratuita da salvação. Para Paulo, todo o apostolado cristão é proclamação da graça de Deus; é o aspecto inovador e transformador da revelação de Deus, que com a palavra “graça” se define pela sua origem gratuita, livre, espontânea, para além de todo o mérito ou resistência. Deus é sempre maior que o nosso coração. O Apóstolo, ao proclamar a graça, vive uma existência em que as atitudes mundanas – desde a depressão até à humilhação, ao medo e à retracção – cedem à serenidade, à alegria, à firmeza e à capacidade de enriquecer os outros: o Evangelho é coisa que se vive.
“…que tem o poder de construir”: a Palavra tem o poder de construir toda a actividade da comunidade. A comunidade é um corpo que cresce conforme as suas articulações bem estruturadas, conforme uma hierarquia interna, uma ordem, uma riqueza de carismas. É um corpo que está a formar-se e é a Palavra de Deus que lhe serve de força construtiva. O conteúdo e as mensagens desta Palavra também constróem o edifício. E Paulo entrevê o futuro da comunidade que, ficando fiel ao primado da Palavra, se constrói na riqueza dos carismas, dos dons, dos serviços e dos ministérios.
“E de vos conceder parte na herança com todos os santificados”: a palavra de Deus também realiza o aumento da comunidade, chamando muitos outros a participar e a gozar desta preciosa herança.
Avaliação e programação do apostolado
É significativo que Paulo manifeste o que o inspira: o mistério de ser Apóstolo da graça e de viver a contradição entre aquilo que as circunstâncias tenderiam a causar, sufocando-o, e aquilo que, ao contrário, com extrema humildade e modéstia, sente que nele está a acontecer, ou seja, a evidência divina que derruba a evidência humana que, de outra forma, a abateria.
Assim, Paulo despede-se de nós dando testemunho da dedicação apostólica total e do desapego profundo, sinal da sua fidelidade à intuição inicial, ou seja: Deus é quem salva as pessoas; é Jesus que lhe apareceu na estrada de Damasco a quem tudo deve. Se Jesus lhe apareceu com toda a força quando ele era pecador, o mesmo se aplica à comunidade e a qualquer outra pessoa. A comunidade é o que é, não porque Paulo trabalhou mas porque Jesus se manifesta com toda a força, tal como Se manifestará no coração de cada um. Isto quer dizer que Deus é a origem e a fonte de toda a misericórdia. Não é o nosso esforço ou a nossa atenção que resultam: mesmo que tenhamos feito de tudo, a balança penderá sempre para a força da misericórdia de Deus.
Paulo já não viverá na comunidade; não voltará a falar; mas a Palavra de Deus estará sempre com eles; e a força desta Palavra renovará as pessoas com uma iniciativa gratuita que previne e conserta toda a fraqueza humana.
Atitude
Vou escutar a Palavra que, para mim, que sou viajante, se torna alimento para a caminhada. É uma Palavra que edifica, não destrói, não recusa ninguém, e é sempre dócil à vontade de Deus. É uma Palavra que se fez gente e que nunca deixa de o ser. É uma Palavra que suscita o desejo dum Destino longínquo, horizonte de plenitude que sempre continuará a propor qualidade de vida, de relacionamentos e de acções. As pessoas não são salvas pelas minhas palavras mas sim pela Palavra de Deus.
Gesto
Como conclusão desta caminhada pastoral, vou escrever na agenda do meu Projecto de Vida as palavras fundamentais sobre que preciso de reflectir, a fim de que façam parte da minha bagagem interior e, depois, traduzam visivelmente aquela ternura que Deus manifesta ao preocupar-se com as pessoas. Comprometo-me a pronunciar palavras que edificam a comunidade-Grupo e a evitar as que a possam corroer.
Oração
Senhor, dai-nos coragem para pôr de lado
as amarras do seguro,
dos hábitos – para podermos viajar.
Nada terei que temer, Senhor:
à Vossa palavra, lançarei as redes.
Até aqui foi em vão que me cansei,
confiando só nas minhas forças.
Chamais-me para viajar
seguindo Vossas pegadas.
Nossos corações acalmai, para que Vossa Palavra venha
e ilumine os nossos passos.
Dai-nos fé, Senhor,
e a coragem de arriscar
mesmo que tudo trave o ímpeto do anúncio.
Pedimos, Senhor, a Vossa ajuda
para a Igreja sempre estar em alto mar
e não nas águas calmas que insinuam morte.
Obrigado por nos escolherdes, confiardes.
Manda-nos mais homens e mulheres
que tudo deixam para viajar
p’ra terras desconhecidas.
Muitos são os que morrem no anúncio.
Por eles oramos, Senhor. Dai-nos a mesma coragem.
Senhor, desta viagem companheiro,
a impaciência nos dai de alargar o passo
e alcançar os solitários caminhantes.
De novo nos ponde a caminho quando o cansaço nos pára
ou abatidos nos vedes por nada termos pescado.
Enquanto peregrinos formos,
de Pão e Vinho enchei o alforge
e acompanhai os passos dos “pescadores de homens”
que escolheram partilhar seu pão com todos os pobres.
Por fim, Senhor nosso Deus,
fazei-nos arautos da paz
onde ódio ou vingança se jura,
ou guerras e violência.
Que as nossas vidas falem,
certos de que por Vós, convosco,
nada nos é impossível.