![]() |
Centro Voluntários do SofrimentoENTREGUES
AO SENHOR
|
|
|
Um caminho espiritual e apostólico da pessoa doente dentro da comunidade cristã Fichas para os encontros de grupo ano 2002-2003 |
||
Ficha 8
A comunhão de Paulo com a paixão de Cristo
À Escuta de ti próprio
Paulo não tem medo ou vergonha de narrar aquilo que lhe aconteceu durante a sua missão apostólica, entre êxitos e fracassos. É sinal de maturidade saber fazê-lo, pois que nos reconhecemos como falíveis e vencíveis – frágeis por natureza. Por vezes, a fragilidade deriva do modo de sermos pessoais e também de decisões de mudança que não sabemos tomar. Outras vezes, são os outros, que com as suas acções desumanas nos tornam frágeis.
Saber reconhecer Deus presente na fraqueza é um dos sinais que mais colocam em evidência a maturidade do cristão.
À Escuta da Palavra
“Decorrido algum tempo, os judeus combinaram matá-lo, mas Saulo foi avisado das suas intenções. Até as portas da cidade eram guardadas noite e dia, com o fim de o matarem. Então, os seus discípulos, tomando-o de noite, fizeram-no descer pela muralha abaixo, dentro duma cesta” (Actos 9, 23-25).
Paulo foi testemunha de Cristo não só nos discursos irresistíveis que fazia ou nos dotes de ternura, mas também em todas as situações de sofrimento por que passou, quando foi preso, quando foi levado a tribunal, ou quando foi transferido duma prisão para outra, com destino incerto, com graves limitações da sua liberdade, e com temor da morte. Nestas situações, Paulo deseja conhecer Jesus entrando numa misteriosa comunhão com os Seus sofrimentos: “Para que eu O possa conhecer, a força da Sua ressurreição, a participação nos Seus sofrimentos” (Fil 3, 10).
Paulo, durante a sua própria paixão, que durou até ao fim da sua vida, experimenta o abandono progressivo por parte dos discípulos. Ele, que era tão rico em energia vital, saía-se com afirmações que não conseguiam esconder o seu cansaço nem a impressão de que já tinha sofrido até ao limite das suas forças. (cfr. 2 Tim 4, 14-16). É uma pessoa cansada mesmo até do ponto de vista físico, prostrado pelo cativeiro. É uma pessoa que luta contra as dificuldades de cada dia, na solidão, e até deixa transparecer um certo pessimismo. Denuncia o que está acontecendo e prevê os males futuros; em certas ocasiões parece que o tom cinzento e queixoso se sobrepôs à esperança e ao entusiasmo.
Esta provação por que Paulo passou é uma prova real, em que reconhece já não ter todas as suas forças, o optimismo, e o entusiasmo…mas tem que ajustar contas com o cansaço e a acumulação das sobrecargas e das desilusões. Deus quer mostrar-nos nele o sinal de que a pessoa é purificada de muitas maneiras e que esta é uma forma profunda de purificação.
Avaliação e programação do apostolado
Das várias situações dolorosas por que Paulo passou, deduzimos o seguinte:
antes de mais, ele recebeu de Deus o dom de poder vivê-las com grande espírito de fé, avaliando o seu significado à luz do plano da salvação;
o espírito de fé está imbuído de sentido eclesial por tudo o que está a sofrer. Ele sofre sim, mas é por toda a Igreja, pela obra de Cristo: “Alegro-me nos sofrimentos suportados por vossa causa e completo na minha carne o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo Seu Corpo que é a Igreja, da qual fui constituído ministro, em virtude da missão que Deus me confiou em vosso benefício. Fui encarregado de anunciar a Sua palavra” (Col 1, 24-25).
O profundíssimo sentido de missão, que é a alavanca central de tudo o que faz pela Igreja, não o abandona sequer nestas ocasiões; antes, dá-lhe a graça de considerar os sofrimentos por que está a passar como conclusão do serviço que quer cumprir até ao fundo.
Atitude
Gostaria de alcançar aquela honestidade interior que não faz cosmética aos fracassos, e saber chamar as coisas pelo nome. Trata-se de ser realista e ajudar-me a viver melhor com as contrariedades, eu saber que não posso agradar a todos, e que aquilo que eu faço também não será do agrado de todos. Quero tolerar a pluralidade e aceitar as inevitáveis divergências a que a diversidade de experiências e de modos de pensar duma outra pessoa necessariamente dá origem.
Gesto
Em vez de me deixar escorregar para manifestações de censura, procurarei comportar-me tal como Cristo Se comportou, esforçando-me por ter os mesmos sentimentos que Ele. Vou fazer um gesto que exprima vida e acolhimento.
Oração
Senhor, vem-me muito a tentação
de desaparecer, sozinho,
de deixar que os outros sem mim se arranjem.
Sinto dificuldade em parar
para esperar por quem é vagaroso
ou faz manha quando eu só quero correr.
Longo é o caminho que tenho adiante,
parece que nunca mais vejo o fim,
e por cima, tanto tempo vou perder
com quem caminhar não quer.
Mas o erro Vós Senhor me mostrais.
Talvez, só, pudesse ficar em primeiro,
mas Vós dos meus irmãos contas querereis
e ao último lugar me mandareis.
Ensinai-me, Senhor, a paciência de esperar,
a generosidade de ajudar a outrem,
a descobrir a beleza do caminho,
dai-me a humildade de não me julgar o melhor.
Não importa chegar em primeiro,
mas sim que o último chegue à meta,
apoiado pela tribo dos irmãos.
Numa estrada nunca se está sozinho,
nem sós podemos existir,
porque Vós connosco caminhais
como fizestes com os de Emaús,
e o pão ensinais a partir entre irmãos,
para de entusiasmo e nova esp’rança
uma vez mais o caminho retomarmos.