Centro Voluntários do Sofrimento

ENTREGUES AO SENHOR
E À SUA PALAVRA

 FECHE A JENELA 


Um caminho espiritual e apostólico da pessoa doente dentro da comunidade cristã

Fichas para os encontros de grupo ano 2002-2003


     

Ficha 7

    

A transfiguração de Paulo

    

À Escuta de ti próprio

     

Andamos em correrias e canseiras; pensamos que temos metas claras quando propomos atingi-las com decisão – muitas vezes absolutizando-as e forçando-as. E então, poderá acontecer-nos o mesmo que aconteceu a Paulo: de súbito, caíram-lhe umas escamas dos olhos e recuperou a visão. Só então é que nos parece ver de verdade e ficamos a compreender como era insensato estar a dizer que tudo estava claro. Lembremos tais momentos para nos considerarmos humildemente cegos, se o Espírito Santo não estiver a iluminar-nos.

 

À Escuta da Palavra

 

“Então, Ananias partiu, entrou na dita casa, impôs as mãos sobre ele e disse: «Saulo, meu irmão, foi o Senhor que me enviou, esse Jesus que te apareceu no caminho em que vinhas, para recobrares a vista e ficares cheio do Espírito Santo». Nesse instante, caíram-lhe dos olhos uma espécie de escamas e recuperou a vista: Depois, levantou-se e recebeu o Baptismo” (Actos, 9, 17-18).

 

É de Damasco que arranca a transfiguração de Paulo. Investido da glória de Deus, ele transforma-se. Este verbo está no presente para indicar uma acção de transformação contínua, por virtude do Espírito de Deus. Transforma-se à imagem de Deus; adquire a luminosidade de Cristo. A sua transformação ainda é mais evidente nos vários conflitos em que entra: com Barnabé, com Pedro, com as comunidades. Foram estas umas ocasiões em que Paulo soube crescer na identificação com Cristo, superando o seu individualismo que por vezes o empurrava a afirmar-se sobre tudo e sobre todos. Tentemos analisar as características desta luminosidade de Paulo:

a primeira atitude que encontramos em todas as suas cartas, mesmo nas mais conflituosas, é uma grande alegria interior.

Paulo junta claramente as suas muitas tribulações e a sua alegria: “Estou cheio de consolação, cheio de alegria em todas as nossas tribulações” (2 Cor 7, 4). Paulo reconhece que esta alegria extraordinária lhe vem de Deus, pois nem poderia vir-lhe de si, o que é típico da transfiguração e não resultado de um bom carácter – não era dote natural nem coisa humana. É uma alegria verdadeira, que ajusta contas com todo o tipo de carga, dificuldade, coisas desagradáveis, mal entendidos, mau humor…com que passa os seus dias. Também se trata duma alegria que fica à sua volta, que é para a sua comunidade, que não é privada.

A segunda atitude é a sua capacidade de reconhecimento. Paulo sabe agradecer; e as suas palavras nunca são uma fórmula vazia: elas exprimem o que ele sente. Como dom de Deus, nesta sua transfiguração apostólica, ele tem a capacidade de ver sempre o bem, em primeiro lugar. Começar cada carta com um agradecimento, significa saber valorizar, antes de mais, aquilo que há de positivo na comunidade a que escreve, mesmo que, afinal, também haja coisas graves, negativas.

 

Avaliação e programação do apostolado

 

A graça que devemos pedir a Deus é a de que estas atitudes típicas do discípulo transfigurado por Cristo crucificado e ressuscitado venham a ser a nossa experiência habitual. No entanto, nós somos tentados a recair nas formas mundanas da vida, mesmo enquanto discípulos. A tristeza é uma característica da pessoa que vive em perspectivas fechadas; e a tristeza subjacente, então, procura a evasão, o divertimento, a distracção, e tudo aquilo que parece tornar a vida alegre, embora não consigam confrontar a tristeza. Ao contrário, o apostolado exige decisões operacionais capazes de exprimir a transfiguração que se deu.

A primeira atitude externa é aquela sua incansável retomada, que toca o prodigioso. Logo desde o primeiro dia da sua conversão, Paulo prega em Damasco e até é obrigado a fugir. Vai para Jerusalém, prega, e obrigam-no a sair. Fica em Tarso até a Providência voltar a chamá-lo. E quando volta a chamá-lo, põe de lado os ressentimentos passados e volta a partir. No seu viajar de missionário, quase cada estação consiste em começar de zero: prega em Antioquia da Pisídia; despacham-no, mas ele vai para Icónio. Em Icónio, maquina-se um atentado contra ele; tentam lapidá-lo, mas ele vai para Listra. Em Listra apanha com uma saraivada de pedras…E assim por diante, quase toda a vida. Esta retomada não é humana: qualquer pessoa, depois de alguns golpes falhados, fica humanamente esgotada. Mas o modo de agir de Paulo vem do alto; é um dom; e é aquilo que faz com que a desilusão nunca seja definitiva. A transfiguração de Paulo é, uma vez mais, a força do Ressuscitado a entrar na sua fraqueza e a viver nele.

A segunda atitude externa é a liberdade de espírito. Paulo sente que atingiu o ponto em que já não age por obrigação ou por conformidade com padrões externos. Ele age assim porque tem riqueza interior. Pode então dar-se ao luxo de tomar atitudes arriscadas – que seria temerário alguém imitar. Paulo está  livre de qualquer juízo ou opinião corrente. De facto, é muito difícil continuarmos isolados perante uma mentalidade generalizada, perante uma cultura adversa. Ele fá-lo com extrema liberdade, sem fazer de vítima, precisamente porque a riqueza que sente dentro de si não é comparável à opinião alheia. É uma liberdade que não é arbitrária ou presunçosa: é sim o sentido da absoluta e total pertença do servo de Cristo. Nesta luz, a liberdade torna-se uma forma rigorosíssima de serviço.

 

Atitude

 

Vou aceitar a acção de Deus que, do meio da escuridão, arranca com o Seu projecto de luz. Ele visita-me e, por acção iluminadora do Espírito Santo, entrega-me uma meta que se vai tornando cada vez mais clara durante o caminho. As escamas que cairão, são como que intuições do Definitivo que, com a sua qualidade, completa a minha caminhada exactamente quando me parecer que está a perder-se na fragmentação das metas intermédias.

 

Gesto

 

O gesto que vou cumprir é uma oração – um pedido humilde e veemente ao Espírito Santo para que me encha com a  vida de Deus. E o meu propósito será este: que a invocação ao Espírito Santo se torne um gesto diário interior, para que eu seja iluminado e saiba identificar com clareza o caminho de Deus na variedade de caminhos que se me oferecem.

 

Oração

 

Senhor, infundi o Vosso Espírito

nas crianças e nos jovens,

nos adultos e nos idosos.

Infundi o Vosso Espírito

nos homens e nas mulheres.

Senhor,

acendei o fogo do Vosso Amor

no Leste e no Oeste, no Norte e no Sul.

Acendei o Vosso fogo

no coração das pessoas.

Acendei o Vosso Fogo

na boca das pessoas,

nos olhos das pessoas,

nas mãos das pessoas.

Acendei o Fogo do Vosso Amor.

Senhor, mandai o Vosso Sopro

sobre os que crêem,

sobre os que duvidam,

sobre os que amam,

sobre os que sofrem,

sobre os que estão sós.

Senhor, mandai o Fogo do Vosso Espírito

sobre as palavras das pessoas,

sobre o silêncio das pessoas.

Mandai o Vosso Fogo

sobre o linguajar das pessoas,

sobre os cânticos das pessoas.

Senhor, mandai o Vosso Sopro

sobre os que ajudam o bem,

sobre os que constróem o futuro,

sobre os que criam beleza,

sobre os que protegem a vida.

Senhor, mandai o Vosso Espírito,

mandai o Vosso Vento

sobre as casas das pessoas.

Mandai o Vosso Espírito

sobre as cidades dos homens

sobre o mundo das pessoas.

Mandai o Vosso Espírito

sobre todos os homens

e mulheres de boa vontade.

Aqui e agora,

mandai o Vosso Espírito sobre nós.

Mandai, Senhor, o Vosso Espírito.