Centro Voluntários do Sofrimento

ENTREGUES AO SENHOR
E À SUA PALAVRA

 FECHE A JENELA 


Um caminho espiritual e apostólico da pessoa doente dentro da comunidade cristã

Fichas para os encontros de grupo ano 2002-2003


     

Ficha 6

    

Conversão e Ruptura

     

À Escuta de ti próprio

     

A experiência da confiança é uma das mais importantes na vida. Saber que temos alguém com quem nos possamos abrir livremente, a quem revelar os projectos que temos a peito, e com quem partilhar os vários momentos, sejam eles fáceis, difíceis, maravilhosos, aterradores, de distensão e de empenho, é uma certeza que dá significado, valor e segurança eficaz para nos sentirmos reconhecidos. É isso que experimentamos na vida do Grupo de Vanguarda.

 Já sabes que aquela mesma confiança que gostarias de gozar a teu respeito também a tens de oferecer gratuitamente aos outros que estão fora do Grupo, superando assim o temor de acolher e envolver-te.

 

À Escuta da Palavra

 

“Chegado a Jerusalém, procurava juntar-se aos discípulos, mas todos tinham medo dele, não querendo acreditar que fosse um discípulo. Barnabé tomou-o então consigo, levou-o aos Apóstolos e contou-lhes como ele, no caminho, tinha visto o Senhor que lhe falara, e como falara corajosamente do nome de Jesus em Damasco” (Actos, 9, 26-27).

 

Paulo sente de imediato o risco de não ser aceite na comunidade de Jerusalém. Depois de Ananias, é Barnabé a quem Paulo mais deve: a Ananias deve a admissão, o primeiro acolhimento, devendo tudo o mais a Barnabé.  Ele foi para Paulo a pessoa que o procurou, o compreendeu e o apoiou. Foi amigo, pai espiritual, mestre de apostolado, aquele que o introduziu à experiência apostólica.

É maravilhoso podermos parar e meditar nesta expressão “Barnabé tomou-o então consigo”. Encontramos aqui o mesmo verbo grego usado por Jesus ao tomar Pedro pela mão no momento em que estava a afundar-se no lago, durante a tempestade (cfr. Mt 14, 31). A imagem que podemos ter é a de Paulo perdido em Jerusalém: todos lhe fecham a porta na cara; a comunidade não dá confiança a este novo recém-chegado, de quem não se sabe bem o que queira – por isso, nem tem onde pernoitar. Barnabé foi ter com ele, deu-lhe a mão e garantiu-lhe a pertença à comunidade dos cristãos, dizendo: “Vem daí, eu acompanho-te, eu apresento-te”. Através de Barnabé, reabrem-se a Paulo as portas da comunidade e as do coração de cada um. Lê-se nos Actos: “A partir desse dia, ficou com eles, indo e vindo por Jerusalém e confessando afoitamente o nome do Senhor” (Actos, 9, 28).

Por detrás desta relação entre Barnabé e Paulo dá-se uma colaboração maravilhosa. Barnabé sabe valorizar Paulo e introdu-lo a uma actividade que se tornará a mais frutífera em toda a Igreja antiga, da qual nasce o cristianismo.

Eis que, entretanto, se dá um facto lamentável: Barnabé e Paulo separam-se devido a um desacordo sobre um colaborador. Para Barnabé, Marcos servia – mas não para Paulo. Para complicar tudo ainda mais, dá-se o embaraço de Barnabé ser primo de Marcos, levando-o a defender um tanto esta parte de si mesmo, a imagem da família. Do ponto de vista histórico é difícil determinar o que realmente se terá passado. No entanto, temos de concluir que aquele recontro terá sido extremamente doloroso e até dramático para ambos.

 

Avaliação e programação para o apostolado

 

Por certo que Paulo terá vivido dolorosamente esta ruptura, sentindo o peso da solidão. Também este acontecimento o terá ajudado a aprofundar ainda mais a intuição de Damasco. Só Deus é fiel; só Ele compreende até ao fundo e nunca nos abandona.

Compreendendo o carácter afectuoso e vulcânico de Paulo, nós podemos imaginar como se terá esclarecido no seu espírito aquele amor todo pessoal por Cristo, que amou até ao extremo, sempre ardente, e que cada vez mais o marcará. Ainda hoje podemos ler com admiração aquelas frases maravilhosas das suas cartas que só poderão ter nascido do tormento do sofrimento, de ter compreendido que o Senhor é realmente tudo. Foi Ele que nos criou e, portanto, conhece-nos até ao fundo.

Passando por peripécias diversas, embora nem todas tenham sido muito claras, Paulo foi levado a concentrar cada vez mais a sua atenção: do empreendimento apostólico como se fosse projecto seu para o empreendimento apostólico enquanto projecto de Deus. Nele foi amadurecendo a identificação do Reino de Deus com o próprio Cristo: tinha sido difícil o caminho que Jesus tinha feito seguir aos Apóstolos durante toda a sua vida. Paulo compreendeu que o essencial para si era Cristo: tudo o mais que ele faz, realiza, e prega com todo o entusiasmo possível é apenas Cristo, que nele vive. A sua inseparabilidade em relação a Cristo é a base de tudo. Jesus é a Pessoa em quem qualquer outra amizade encontra sentido, significado e beleza.

Este “em conjunto” de que se falou na Ficha 4 não faz descarrilar a razão ou o porquê do ministério. O centro de tudo continua a ser o Crucificado Ressuscitado. Neste sentido, a própria dimensão humana de se ser um Grupo deve abrir-se ao dom sobrenatural de si mesmo, que afinal é o compromisso apostólico. Por outro lado, o conjunto do Grupo não os faz cair no anonimato do “todo”; a nossa identidade, rica e responsável, marca e torna verdadeiro esse todo que é o Grupo.

 

Atitude

 

Quero treinar-me em atitudes que favorecem a aceitação. Não me fazem bem, nem produzem comunhão, as atitudes que alimentam suspeitas, antipatias, estereótipos e desconfianças. Quero considerar as outras pessoas como gente que viu o Senhor e a quem o Senhor falou.

 

Gesto

 

No meio do meu Grupo, vou comportar-me como alguém que se preocupa com os outros, em especial os tímidos e os desanimados, os agressivos, que precisam de ser amados, os que não gostam de se arriscar e precisam de ser estimulados.

 

Oração

 

Não é verdade que a diversidade

tem espontânea aceitação.

Há alturas em que a diversidade

põe à prova os nossos nervos;

casos há em que a quereríamos eliminar, como por encanto,

para que todos connosco concordassem,

tivessem os mesmos gostos e desejos.

Mas Vós nos criastes diferentes:

quer o queiramos, quer não, assim falam os factos.

Factos incómodos estes

para quem é zeloso da ordem

e admira a disciplina.

No entanto o real é uma riqueza

para quem sabe apreciar

as capacidades dos outros.

Coisa embaraçosa é porém

a realidade diversa

para quem a considera um vergonhoso atentado

contra a própria opinião,

ou personalidade.

Mas ela é benefício

para quem ama a liberdade

seja ela sua ou doutro.

Obrigado, Senhor p’la diferença

de pele, cultura, tradição.

Obrigado: nos salvastes

Da homologação, do achatamento,

Da clonagem, massificação.

Obrigado p’l os que obrigam

a considerar seu pensamento,

também seu temperamento,

ou mesmo o comportamento

que é tão diferente do nosso.