Centro Voluntários do Sofrimento

ENTREGUES AO SENHOR
E À SUA PALAVRA

 FECHE A JENELA 


Um caminho espiritual e apostólico da pessoa doente dentro da comunidade cristã

Fichas para os encontros de grupo ano 2002-2003


     

Ficha 5

    

Um Discurso Pastoral

     

À Escuta de ti próprio

     

Perante Deus, eu não tenho receio de não ser reconhecido por aquilo que sou ou por aquilo que Ele quis que eu fosse, ou seja, um vaso de eleição, pré- escolhido para cumprir uma missão – a de transportar o Seu nome sem ter medo dos poderosos deste mundo.

À pergunta que fazíamos “Quem sois Vós, Senhor?”, segue-se agora outra: “Quem sou eu?”. E a resposta tem a ver com a minha pessoa, sim, mas também com o meu Grupo (“Quem sou eu-grupo dentro da minha comunidade?”). Ela poderá de facto tornar-se uma escolha de plenitude que, segundo o paradoxo evangélico, se manifesta em tornarmo-nos servos da missão de Deus para o mundo.

 

À Escuta da Palavra

 

“Mas o Senhor disse-lhe (a Ananias): «Vai, pois esse homem é instrumento da Minha escolha para levar o Meu nome perante os pagãos, os reis e os filhos de Israel. Eu mesmo lhe hei-de mostrar quanto ele tem de sofrer pelo Meu nome»” (Actos 9, 15-16). 

 

A conversão abre-se a uma actividade que tem como protagonista o Deus de Jesus Cristo, que fez ouvir a sua voz na estrada de Damasco, mas também inclui Paulo, chamado a tornar-se apóstolo, e a Igreja, representada aqui na missão de Ananias, que tem por tarefa orientar e iluminar Paulo. Mas de que é que Paulo tem consciência? Só o sabemos mais à frente, no discurso de Mileto, que afinal é uma espécie de testamento pastoral, um discurso de despedida, no qual identificamos uma olhada retrospectiva sobre a sua vida. É um testamento altamente elucidante para todos nós: “Sabeis como desde o primeiro dia em que cheguei à Ásia, procedi sempre convosco. Tenho servido o Senhor com toda a humildade e com lágrimas no meio das provações que as ciladas dos judeus me acarretaram” (Actos, 20, 18-19).

“Sabeis…”: Paulo não sente necessidade de se auto-descrever, mas refere-se à experiência que outros tiveram. Ou seja, Paulo sente-se unido à sua comunidade, sente-se conhecido e familiar, até. Não tem nada a contar porque “vós sabeis, tendes-me visto, tenho estado convosco”. O seu ministério poderia resumir-se nestes termos: Paulo tem sido uma pessoa no meio do povo, alguém que o povo conhece, sobre quem sabe tudo, e que pode dar testemunho. É um ministério baseado no ser-com, sobre a comunicação, a convivência. Paulo sabe muito bem que o povo olhava para ele como exemplo a seguir e sentia perfeitamente a responsabilidade, não só das palavras que dizia, como também das acções que praticava. O povo olhara para aquilo que ele era, como vivia, ainda antes de emitir juízo sobre se as suas palavras eram interessantes, lindas, verdadeiras ou práticas. Ele comportava-se servindo.

“Tenho servido o Senhor”: tal deve ser o modo de estarmos em comunidade. Paulo vê-se a si mesmo e sabe que os outros o vêem, antes de mais, como servo de Cristo e não como servo da comunidade. Esta explicitação caracteriza o seu apego a Cristo e a sua liberdade perante a comunidade. É maravilhosa a liberdade que Paulo vive: ele não deve nada a ninguém senão a Cristo; e, por meio d’Ele, sim, também a todos. Ele não tem que agradar a mais ninguém senão a Cristo, e a comunidade bem sabe que ele não está ali para agradar, para satisfazer, para responder a expectativas – está ali para servir Cristo. E, desta forma, poderá então servir fielmente a Igreja, o povo (e nós diremos…a diocese, a comunidade paroquial, cada uma das pessoas).

“Entre lágrimas, com toda a humildade”: espanta-nos esta marca que até parece negativa. Teria sido mais lógico ouvi-lo dizer: tenho servido com zelo, com fervor, com inteligência, com coragem, com competência, com perseverança, na medida das minhas possibilidades…Mas em Paulo as lágrimas, e a humildade surgem como um  modo de servir o Senhor. Para Paulo, as lágrimas são uma experiência-limite. Não nos parece que fosse pessoa que chorasse facilmente; e no entanto, ele encontrava-se em situações tão tensas, tão infestadas de dificuldades, tão cheias de amargura e desilusões, de provações tão duras e tão dramáticas, que desatava a chorar quer ao falar com as pessoas quer ao escrever as suas cartas.

 

Avaliação e programação para o apostolado

 

Paulo é uma pessoa de participação intensíssima. Ele está envolvido de modo profundo, emotivo e afectivo no que faz. Ama as pessoas, mas não de forma genérica: recorda nomes, situações pessoais, de família, de trabalho e de doença. Todos aqueles cristãos lhe estão presentes como gente conhecida; um por um, eles constituem fonte de amargura, tristeza, lágrimas e também de intensa alegria. As lágrimas e a humildade, enquanto atitudes que marcam a actividade pastoral de Paulo, podem ser descritas sob três aspectos:

aspecto social: como um certo modo de se comportar. Por um lado, trata-se de não se dar ares; pelo outro, trata-se duma viva atenção pelos outros. A humildade é sociabilidade sem pretensões, cheia de afecto, de atenção. Também implica distinção, correcção, uma certa reserva, educação profunda. Nada ajuda mais as pessoas que sabem não valer grande coisa na sociedade (muitos daqueles cristãos eram escravos, gente desprezível) do que verem-se ser tratadas com todo o respeito e com grande valorização daquilo que são.

 

Aspecto pessoal: uma certa consciência de si mesmo. Trata-se dum juízo de valor sobre si mesmo e da capacidade de se auto-avaliar correctamente e segundo aquilo que as nossas fraquezas e fragilidade nos dão a entender. A escola da vida levou Paulo a adquirir este comportamento, a pensar em si de maneira humilde, desapegada, tranquila, sem culpabilização, com tranquilidade.

 

Aspecto teológico: uma certa relação com Deus. Tal como o Senhor Jesus serviu com toda a humildade, assim também o Seu discípulo segue caminho idêntico exercendo a autoridade com a humildade, a mansidão e a brandura de Cristo. Esta é por certo uma das características que separam radicalmente a actuação pastoral de qualquer outro poder. A actuação pastoral assenta na mansidão de Cristo e, precisamente por isso, poderá também assumir, tal como em Paulo, posições duras e decisões incómodas, assentes não na pretensão de defender a própria personalidade mas sim na mansidão e humildade de Cristo, que sabe tomar uma posição perante a vida.

 

Somos chamados a interrogar-nos sobre o tipo de presença-serviço que vivemos na nossa comunidade paroquial segundo três sugestões:

 

o relacionamento que, enquanto Grupo, mantemos com o nosso pároco;

o relacionamento com outras associações e movimentos presentes na paróquia;

como vivemos o empenho apostólico segundo a ministerialidade específica da nossa vocação CVS.

 

Atitude

 

Tenho consciência  interior de que levar o nome de Deus aos homens significa pôr a vida em jogo, mudar efectivamente, converter-se e sair de si mesmo? Não podemos ser instrumentos de Deus pelas aparências externas. É o sofrimento que vem com a renúncia aos primeiros lugares, com a renúncia a sermos sempre reconhecidos e apreciados. É o sofrimento de encontrar situações adversas e desfavoráveis ao anúncio da presença de Deus ao lado das pessoas. É o sofrimento que vem da privação das várias comodidades, do à- vontade e do bem-estar pessoal – porque o Reino dos céus sofre violência e são os violentos-apaixonados que dele se apoderam.

 

Gesto

 

Jesus Cristo revelou-me que não há maior amor do que o daquele que dá a vida pelos seus amigos. Não quero ter outras motivações no apostolado a não ser este amor que me coloca a caminho ao encontro do outro. É este amor que me empurra; e no nome deste amor, vou tornar-me disponível para pagar o preço da rejeição, da hostilidade, do sofrimento do discípulo que de boamente labuta pelo anúncio do Evangelho, sem nunca receber recompensas, a não ser a de levar Deus às pessoas e as pessoas a Deus.

 

Oração

 

A minha única esperança é o meu Deus,

fonte da vida e da alegria.

N’Ele eu espero, n’Ele eu creio, é Ele que eu amo.

Espero no Pai, de tudo Criador;

em Jesus, verdadeiro Filho do meu Deus;

e no Espírito que em mim infunde esperança.

Na Sua misericórdia infinita eu espero

nela, que p’las minhas humanas mãos e palavras passa.

Espero, por saber que ninguém tem maior amor:

o de a vida dar pelos amigos.

Espero para ajudar mulheres e homens a esperarem

também, contra toda a esperança.

Espero para na mesma esperança apontar

o caminho mais lindo do abandono a Deus

para na alegria, e não no desespero, sempre estar.

Espero porque sei que o meu Deus não me ilude

e de dons-surpresa me inunda.

Espero, por fim, n’Aquele que da morte me erguerá

e à vida eterna me conduzirá.