![]() |
Centro Voluntários do SofrimentoENTREGUES
AO SENHOR
|
|
|
Um caminho espiritual e apostólico da pessoa doente dentro da comunidade cristã Fichas para os encontros de grupo ano 2002-2003 |
||
Ficha 4
Conversão e desilusão
À Escuta de ti próprio
Para além de todas as sentenças, umas vezes agressivas, outras vezes cheias de entusiasmo, tu bem sabes que aquilo que deves realmente anunciar é o facto de que Jesus é o Filho de Deus. Perdemos muito tempo na vida a anunciarmo-nos a nós mesmos, o nosso próprio reino e respectivas exigências – em vez de anunciarmos o Reino de Deus e as suas exigências.
E trata-se de exigências que nunca são pretensiosas nem opressoras, sempre capazes de provocar um desejo de salvação, mediante o desafio de «caminhar juntos».
À Escuta da Palavra
“Depois de se ter alimentado, voltaram-lhe as forças e passou alguns dias com os discípulos, em Damasco. Começou então, imediatamente, a proclamar nas sinagogas que Jesus era o Filho de Deus. Os que o ouviam ficavam estupefactos e diziam: «Não foi ele que, em Jerusalém, perseguiu aqueles que invocavam o nome de Jesus?»” (Actos 9, 19-21).
Depois da conversão, Paulo começou a pregar; e os anos que se seguiram ao acontecimento de Damasco foram uma altura difícil, tenebrosa. A certo ponto, as autoridades começam a preocupar-se e levantam-lhe tal oposição que Paulo tem de fugir. Não se lê nos Actos que a comunidade o tenha apoiado ou restringido: afinal ele era um elemento incómodo, embora admirado pelo seu zelo. Bem podemos dizer que os anos da conversão foram anos de dificuldades, de choques, de incómodos, tudo provocado pelo seu modo demasiado incendiário na pregação, sempre a expor-se demasiadamente. Também foram anos de solidão, de silêncio e de pouco à vontade.
Perguntemos então: durante este tempo há em Paulo algo que simplesmente não corre bem ou, então, tudo é culpa de quem o não compreende, o contraria, prefere livrar-se dele ou o não sabe valorizar? Como em tudo o que é humano, talvez o problema seja de ambas as partes. É verdade que a comunidade, talvez inclinada para uma visão apertada do apostolado, cheia de medo e reservas, não terá compreendido Paulo, não terá sabido valorizá-lo, com medo de o seu modo de actuar produzir mais estragos que vantagens. Os que eram seus adversários, porém, lançaram-se contra ele porque tiveram a intuição de que esta era uma pessoa-chave.
Até o próprio Paulo, se tivesse sido interrogado, talvez tivesse confessado que, lá no íntimo, nem tudo corria bem. Aconteceu-lhe aquilo que costuma acontecer nas grandes conversões: no próprio momento tudo se apresenta em boa luz; mas quando se volta ao dia a dia, a pessoa acaba por se reencontrar. E aí serão precisos tempo, paciência, e perseverança para que o novo modo de ser e de ver as coisas, que deve amadurecer, se possa integrar na própria personalidade. As ideias são claras, sim; e as palavras também; mas o modo instintivo de agir torna a ser o mesmo de antes.
Avaliação e programação do apostolado
Ao fazermos estas interpretações, talvez estejamos a falar mais de nós que de Paulo. Na caminhada pela procura de Deus, nós tendemos a esclarecer cada vez mais as nossas motivações, mas bem sabemos que isso nem sempre vai de mãos dadas com a mudança imediata do nosso modo instintivo e possessivo de nos colocarmos em relação com as coisas e as situações. Esta possessividade transfere-se do campo material para o espiritual, do campo dos interesses pessoais para o dos interesses apostólicos – para além das palavras que dizemos e dos lindos conceitos que elaboramos.
Poderíamos agora perguntar a Paulo: como é que viveu os anos imediatamente a seguir à sua conversão? Que significado teve para si esta provação da solidão e da marginalização na comunidade? Como foram aqueles primeiros sermões em Jerusalém, encontrando-se mentalmente já tão longe daquele mundo?
Ao falar-nos dos seus sentimentos, Paulo poderia dizer-nos que a sua primeira reacção terá sido certamente a indignação, a desforra ou até o ressentimento: para que haveria de gastar as forças e a vida por gente ingrata, por uma Igreja e pelos tais “irmãos” que de nada se importavam? É um sentimento que se aninha em nós, que não dá paz e que, no final – como é costume acontecer – se transforma em ressentimento contra o próprio Deus. Porque é que Cristo me terá chamado com tanto palavreado para depois me reduzir a trabalhar na minha loja de Tarso sem futuro? Haverá realmente um desígnio divino a meu respeito ou será isto um sonho?
Paulo terá passado por momentos destes. São dificuldades interiores por que passam todos aqueles que se abrem à comunhão com Deus. Mas, passada a indignação ou o ressentimento – como aliás sucede com a graça de Deus quando a provação vem moendo por dentro – surge a reflexão e com ela uma pergunta, que é curta, mas, mesmo assim, é capaz de rasgar a escuridão de um céu que insiste em ficar fechado, ou seja: E se também nesta provação existisse uma palavra providencial de Deus para mim?
À luz desta pergunta, Paulo redimensionou o seu zelo apaixonado, notando que se ligara a projectos imediatos, ao passo que o Reino de Deus ficaria para além e acima de tudo. Que por boas e interessantes que sejam as coisas, elas passarão – só ficando o Senhor de todas elas. Dá-se em Paulo uma expropriação. A primeira acontece quando renunciou aos privilégios de um fariseu, de um hebreu que era filho de hebreus. A segunda consistiu em ter de perder tudo aquilo de que podia, com direito, vangloriar-se – ser apóstolo com o dom da palavra, dotado de linguagem persuasiva, fogoso, violento, muito acima da tímida manifestação das pessoas comuns.
Ora isto leva-nos a compreender porque é que dentro do Grupo de Vanguarda é fundamental caminhar em conjunto, anunciar em conjunto – sim, em conjunto. Juntos no CVS, mas também na Igreja local…sempre. É totalmente possível correr, assim, o risco de atrasarmos a corrida. Mas isso não importa; o pouco que se construir é propriedade de todos e saberá a uma actuação da Santíssima Trindade.
Atitude
Reconhecer a centralidade de Jesus Cristo como Senhor dos senhores é um acto de fé e de entrega confiante Àquele sem o qual não pode haver salvação definitiva. É Ele que imprime consistência e sabor evangélico ao nosso apostolado. Deus ocupa o primeiro lugar e fica acima de tudo aquilo que eu conseguir fazer. Ele é o Outro-outros que no decorrer do quotidiano nos interpela(m) à maneira duma presença exigente, na difícil dimensão do diálogo e da reciprocidade.
Gesto
Realizarei um gesto de abertura e disponibilidade aos membros do Grupo. Acima de tudo, quero entender até ao fundo a dimensão do anúncio coral do Reino de Deus. Os outros não são concorrentes na actividade apostólica: são, sim, colaboradores. Quero voltar a compreender a minha vocação nativa e autêntica de ser-para e ser-com-o outro para poder ser-para e ser-com-o-Outro.
Oração
Para nós, Cristo é tudo.
Se as tuas feridas queres curar, Ele é o médico.
Se estás a arder de febre, Ele é a fonte em que reviverás.
Se as tuas culpas te oprimem, Ele é a justiça.
Se de ajuda tu precisas, Ele é a força.
Se da morte tens medo, Ele é a vida.
Se anelas pelo céu, Ele é o caminho.
Se queres fugir das trevas, Ele é a luz.
Se andas faminto, Ele é o alimento.
Por isso, provai e vede
como o Senhor é bom.
E feliz de quem só n’Ele confia.