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Centro Voluntários do SofrimentoENTREGUES
AO SENHOR
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Um caminho espiritual e apostólico da pessoa doente dentro da comunidade cristã Fichas para os encontros de grupo ano 2002-2003 |
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Ficha 3
A cegueira como resplendor de Deus
À Escuta de ti próprio
Por vezes, a cegueira interior ainda te fica mais pesada que a cegueira física. Principalmente quando precisas de tomar uma decisão e te falta a luz espiritual; ou quando poder ver o caminho é muito importante para poder caminhar ou para não errar. Há caminhos que não poderás enfrentar sozinho, porque não te é concedido ver tudo – apenas alguns aspectos da realidade. Há decisões que se não podem tomar sozinhos, por serem demasiado importantes. Não podes pretender conhecer o infinito: só conhecerás pequenas porções. É Deus, aliás não pensado e não esperado, aquela luz que alumia todas as peças da tua realidade. Eis por que o Grupo é necessário: ele não é uma estratégia humana; é projecto de Deus e ícone da Santíssima Trindade.
À Escuta da Palavra
“Saulo ergueu-se do chão, mas, embora tivesse os olhos abertos, não via nada. Foi necessário levá-lo pela mão e, assim, entrou em Damasco, onde passou três dias sem ver, sem comer nem beber” (Actos, 9, 8-9).
Por que razão é que Paulo foi atacado de cegueira depois de lhe ter sido revelado o mistério luminoso de Cristo? Na Sagrada Escritura, a cegueira está claramente ligada ao pecado, à desorientação da pessoa, ao seu cambalear, na incapacidade de se orientar – na incapacidade de acertar com o caminho. Não é fácil desvendar a causa da cegueira de Paulo, já que os Actos dos Apóstolos não a explicam, limitando-se apenas a descrever o facto a que o Apóstolo não parece voltar a referir-se nas suas cartas.
Numa tentativa de responder a esta questão e entrar no seu espírito, podemos aduzir dois motivos:
antes de mais, existe um motivo bíblico que tende a reaparecer: o de que a pessoa não pode ver Deus sem morrer. A visão de Deus é uma luz, mas, para a materialidade humana, ela é motivo de susto, dando a entender à pessoa a grande escuridão em que se encontra. Pelo contacto com Deus que é luz, a pessoa descobre que é trevas. O conhecimento da glória de Cristo reflecte-se no conhecimento da escuridão pessoal de cada um, escuridão essa que Paulo experimentou na vivência da cegueira até quando a palavra da Igreja – a de Ananias - intervier para lhe dar o sentido da sua aceitação na Igreja e o sentido da segurança de quem caminha pelas sendas de Deus.
o segundo motivo que poderá explicar esta cegueira é a participação de Paulo no pecado do mundo, a sua inserção na humanidade pecadora. Na sua cegueira, o Apóstolo vai até ao fundo do mistério das trevas da pessoa humana, facto que lhe permitirá compreender a força da luz e das suas capacidades de refazer um mundo todo novo. Na experiência das trevas, Paulo terá captado a força da iluminação baptismal à qual se submeteu por obra de Ananias, recebendo, na Igreja e da Igreja, a força da salvação.
Na noite – talvez na morte da segurança anterior – nasce Jesus, que é a Vida!
Avaliação e programação do apostolado
A comunidade cristã dos tempos de Paulo, tal como hoje, era presa da discórdia, da rivalidade, da divisão, das facções que, a certa altura, dominam cada decisão que se tome. Também nós, se não nos vigiarmos, se só pensarmos por força do hábito de termos encontrado um certo modo de viver, facilmente poderemos ser presa do peso das forças negativas que Paulo descreve.
Porém Paulo ainda vai mais a fundo; de forma que, a exemplo de Jesus, denuncia o pecado que se encontra na base de todos os outros pecados: o de não querermos Deus como Ele é, o de não reconhecermos que a nossa vida só pode ser determinada pela escuta de Deus. O ponto desestabilizador é exactamente a nossa convicção de que não é preciso atender a Deus, que não é a Palavra de Deus que deve determinar a nossa vida mas, ao contrário, apenas a nossa decisão. Esta recusa poderá até vestir, tal como em Paulo, a capa do zelo – ao orgulhar-se da sua tradição e da honradez, Paulo afinal recusava a misericórdia de Deus como elemento determinante da sua vida.
Para encerrarmos esta primeira etapa, temos de concluir que quem se deixa levar por Deus vive uma caminhada pessoal, claro; mas só encontrará a sua plena e total realização se ela também tiver características comunitárias. O Grupo de Vanguarda, na qualidade de «igreja nas residências», é, antes de mais, «escola de comunhão», uma linfa vital que se traduz em fecundidade.
Atitude
A humildade de Jesus provoca-me. Ele desapegou-se de tudo, Ele que é o dono de toda a riqueza. Vou decidir que não serei o único senhor da minha vida pessoal. Vou tentar entregar-me – para que seja Deus a tomar a responsabilidade total pela minha realização, enquanto, por outro lado, me fará desejar continuamente resultados de plenitude, com características totalmente diferentes daquelas que eu tinha imaginado.
Gesto
Vou fazer esse gesto corajoso do cego que se deixa guiar pela mão. E exprimi-lo-ei ao não querer ter sempre razão, pois que chego por vezes a prevaricar e a não deixar que os outros se manifestem.
E vou também prestar atenção a mim mesmo: se ainda não tiver um director espiritual, procurarei um companheiro espiritual de viagem que caminhe comigo para os horizontes de Deus.
Oração
Está escuro, dentro de mim
mas junto de Vós jorra a luz.
Estou sozinho mas Vós não me abandonais.
Estou com medo,
mas junto de Vós encontro auxílio.
Estou inquieto,
mas junto de Vós abunda a paz.
Sinto amargura,
mas junto de Vós reina a paciência.
Eu não entendo os Vossos caminhos,
mas Vós conheceis a minha caminhada.
Guiai-me, Luz mansa, pelo meio das trevas,
sede Vós a guiar-me.
A noite está escura, é longínqua a minha casa:
sede Vós a guiar-me.
Vinde dirigir os meus passos; quanto a prever
não Vo-lo peço – basta-me uma só passada segura.
Dantes, eu não pensava assim, nem Vos rezava:
sede o meu guia.
Dantes, eu gostava de escolher o meu próprio caminho; mas agora
Sede Vós o meu guia.
Eu gostava da luz do dia e, sem medo algum,
cedia à soberba – Por favor, não recordeis o passado.
Estivestes comigo muito tempo;
por isso posso insistir:
sede o meu guia.
Por entre charcos e lamaçais, fendas e torrentes
até ao passar da noite.