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Centro Voluntários do SofrimentoENTREGUES
AO SENHOR
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Um caminho espiritual e apostólico da pessoa doente dentro da comunidade cristã Fichas para os encontros de grupo ano 2002-2003 |
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Ficha 2
Conhecer Jesus
À Escuta de ti próprio
Quem sois, Senhor? A tua alma, durante a oração, já terá feito esta pergunta, que é fundamental para a nossa fé e que exprime o desejo de conhecer Aquele-que-é. Deus nunca deixa de se manifestar a quem O procurar a sério. Ora, Ele revelou-Se definitivamente na Incarnação do Seu Filho.
A partir desse momento, é Deus Quem nos dirige uma pergunta de identificação, ou seja: quem dizes tu que Eu sou? A resposta será pessoal, uma resposta que se deve procurar na intimidade da oração, naqueles cacos da vida que com grande esforço tentas organizar numa unidade. Mas também é uma resposta de Grupo, na medida em que fazes missão e apostolado com os outros irmãos na fé.
À Escuta da Palavra
“Quem sois Vós, Senhor?” E logo a resposta: “Eu sou Jesus, a Quem tu persegues! Portanto, levanta-te, vai à cidade e aí se te dirá que deverás fazer” (Actos 9, 5-6).
Mas de onde é que o Senhor obrigou Paulo a sair, em Damasco? Onde estava Paulo quando a Palavra se lhe fez ouvir? Paulo foi apanhado numa situação de quem segue tradições, empenho pessoal, zelo, justiça: todo um conjunto de coisas muito boas que lhe são igualmente muito queridas e que repetidamente enumera nas suas cartas com grande emoção. Paulo afirma que a Palavra de Deus o apanhou exactamente quando estava na posse de valores fundamentais, que conquistara com grande sacrifício: “muito embora eu possa também confiar na carne” (Fil 3, 4). Trata-se das realidades que nos chegam por natureza, pela história, pela obra das suas mãos, tais como:
- o estatuto de ‘circunciso’, e não como os pagãos que, por desdém, eram chamados de incircuncisos, no sentido de amaldiçoados, abandonados, gente de quem Deus não parecia ocupar-se;
- da estirpe de Israel, ou seja, membro do povo escolhido, luz das nações;
da tribo de Benjamim, ou seja, alguém que conhece os seus antepassados, o seu passado, a ligação que o prende ao filho de Jacob;
hebreu entre hebreus, quer dizer, a herança recebida: pai, mãe, avós, todos membros desta ínclita geração;
fariseu segundo a lei, quer dizer, hebreu de estrita observância, de rigor moral absoluto, que melhor conhecimento tinha da Lei, que mais a fundo vivia as tensões espirituais;
e perseguidor da Igreja, em termos de zelo, ou seja: fixo na observância mais estrita, combatia tudo aquilo que ameaçasse a estabilidade do povo a que pertencia.
Paulo vivia a sua realidade do seguinte modo: como se ela fosse um tesouro que não podia entregar a mais ninguém. As consequências deste modo de posse resultavam num enorme cuidado pela sua defesa, num grande zelo pela sua promoção, e numa grande violência contra todos aqueles que pudessem colocar em perigo esse seu tesouro.
Eis a agitação em que Paulo viveu: ele não considerava Deus como Deus, ou seja, como origem de todo o bem. Antes, no centro de tudo estava a sua posse, a sua verdade, os tesouros que lhe tinham sido confiados. Ele não vivia um Evangelho da graça mas sim a lei da auto-justificação, que o levava a esquecer que, afinal, era simples homem, dotado de graça de Deus, não porque fosse digno mas porque Deus o amava.
O drama de Paulo é um drama subtil, difícil, tal como aquele que até nós poderemos estar a viver no nosso zelo apostólico: em vez de reconhecermos a nossa fraqueza e fragilidade como caminho para a acção de Deus, nós talvez nos consideremos determinantes só se formos fortes, capazes. Tal é a perversão do fariseu, para quem a pessoa se salva sozinha e, pensando ter chegado ao cume da perfeição, chega também a cometer graves violências, tal como fez Paulo à primeira comunidade cristã.
Avaliação e programação do apostolado
Mas em que direcção é que o Senhor enviou Paulo?
- Antes de mais, enviou-o para um desapego total daquilo que antes lhe parecia extremamente importante. Levou-o a uma visão completamente nova da realidade. Não a uma mudança moral imediata, mas sim a um iluminação: ao colocar-se num ponto de vista novo, quer dizer, o de Cristo, tudo depois lhe pareceu diferente. De facto, ele passou a julgar a sua vida de maneira tão diferente que a resposta interior à palavra de Jesus no caminho de Damasco foi apenas esta: “Aquilo que para mim podia ter sido lucro, passou a ser considerado motivo de perda, por causa de Cristo” (Fil 3, 7). Paulo parece querer dizer: errei em tudo. Pensava que era válido aquilo que o não era e deixei-me atrair por um modo violento de agir, que afinal era injusto. Eu que me gloriava da minha justiça, acabei por me tornar carrasco para com gente inocente.
Enquanto Jesus lhe pergunta “Porque me persegues?”, Paulo compreendeu, subitamente, que confundiu tristemente a verdade das coisas. É de compreender, o terrível choque que sentiu: não por raciocínio mas por contacto directo com a verdade, percebendo que tinha de refazer tudo, de virar tudo ao contrário.
- A segunda modalidade que manifesta a sua mudança de direcção é esta: a missão que fica confiada a Paulo. É perturbador para Paulo que as duas coisas aconteçam ao mesmo tempo. Ou seja: no momento exacto em que Jesus lhe dá a entender que “erraste tudo”, também lhe diz: “tudo te confio” – vou enviar-te. O Deus do Evangelho e da misericórdia é precisamente aquele que, no momento em que me dá a entender que errei em tudo aquilo que Lhe diz respeito – por eu me ter colocado no lugar que era d’Ele - , revela-me a Sua misericórdia perdoando-me e dá-me a Sua confiança chamando-me ao Seu serviço e confiando-me a Sua própria Palavra.
A experiência do sofrimento humano enxerta-nos exactamente nesta dinâmica humana e divina – a de que, tal como Paulo, nós descobrimos o grande fracasso e a nossa inutilidade face ao tempo em que “com juízo”, de tudo éramos capazes; mas tal como Jesus, fracos e frágeis, reconhecemos tanto a confiança que Deus tem em nós como a missão que Ele nos confia, nada menos que a nós!
E assim, é o próprio Grupo de Vanguarda que se torna o lugar natural e privilegiado para vivermos eficazmente este compromisso.
Atitude
Que há em mim de comum, de diferente ou de análogo com a experiência por que Paulo passou?
Como poderei descobrir na minha vida a acção antecipante de Deus que me faz ser o que sou?
Como, e de que modo, é que Jesus, tal como foi para Paulo, é para mim o ponto de referência fundamental para eu compreender quem sou, que sou, de onde venho, e a que sou chamado?
Temos de fazer tais perguntas com amor. Porque se as fizermos com espírito possessivo ou com espírito de auto-justificação, certamente que responderemos depressa, sem conseguirmos ver a fundo a história da nossa vida, à luz de Deus. Mas se nos interrogarmos com amor e com misericórdia, talvez venha à tona aquilo que em nós não é obra de Deus, tal como aquilo que é uma atitude de resistência à Sua obra.
Gesto
“Eu sou Jesus a Quem tu persegues!”. Com estas palavras, o Filho de Deus comunica a sua definitiva identificação com as pessoas. Doravante, tudo o que se fizer aos outros é como se Lhe tivesse sido feito a Ele; da mesma forma como tudo aquilo que não se fizer aos outros será como se não tivesse sido feito a Ele. Estamos perante uma realidade muito exigente!
Quero prestar atenção a duas coisas: empenhar-me em olhar para as pessoas do Grupo como se fossem o próprio Jesus; e acabar com aquelas atitudes ocasionais de perseguição subtil e cortante para com os membros do Grupo.
Oração
Mostrai-Vos, Senhor;
a todos os peregrinos do Absoluto…
Vinde ao seu encontro, Senhor;
caminhai, Senhor,
com todos aqueles que se metem a caminho
mas não sabem para onde ir;
ponde-Vos ao lado… e caminhai
com todos os desesperados
nas estradas de Emaús;
e não Vos ofendais se eles não souberem
que sois Vós quem a seu lado vai,
vós que os tornais inquietos
e incendiais seus corações.
Eles não sabem que em si Vos levam:
ficai com eles, pois que entardece
e a noite é escura e longa, Senhor!