Centro Voluntários do Sofrimento

ENTREGUES AO SENHOR
E À SUA PALAVRA

 FECHE A JENELA 


Um caminho espiritual e apostólico da pessoa doente dentro da comunidade cristã

Fichas para os encontros de grupo ano 2002-2003


     

Ficha 1

    

Damasco: o caminho duma vida nova

    

À Escuta de ti próprio

    

A mensagem que o mundo contemporâneo te dirige é do tipo “Descansa: nós pensamos em tudo. Se a vida é uma viagem, nós torná-la-emos agradável. Poderás divertir-te e passar um ano inteiro de férias”. Mas a mensagem que Cristo te dirige é esta: “Não leves nada para o caminho: nada de bordão, alforge, pão, dinheiro, ou duas mudas de roupa”.

São Paulo, que foi um viajante incansável, fala da sua actividade apostólica nestes termos: “Viagens sem conta, exposto a perigos nos rios, perigos de salteadores, perigos da parte dos meus concidadãos, perigos dos pagãos, perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar, perigos entre os falsos irmãos. Trabalhos e canseiras, repetidas vigílias, com fome e sede, frequentes jejuns, frio e nudez! E, além de tudo isto, a minha obsessão de cada dia: o cuidado de todas as igrejas! Quem é fraco sem que eu também o seja?” (2Cor 11, 26-29).

Dá ouvidos às viagens que o teu coração já fez, àquelas que o teu coração gostaria de fazer, àquelas que tens medo de lhe propor. Dá ouvidos ao salmista que te abençoa ao dizer: feliz daquele que encontra a sua força em Deus e decide, no seu coração, fazer uma viagem santa (cfr. Salmos 83, 6). Abre-te com generosidade à viagem que o Grupo de Vanguarda te propõe fazer este ano.

 

À Escuta da Palavra

 

“Estava (Saulo) a caminho e já próximo de Damasco, quando se viu subitamente envolto por uma intensa luz, vinda do céu. Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: «Saulo, Saulo, porque Me persegues?»” (Actos 9, 3-4).

 

Se perguntássemos a Paulo, no acto de ser martirizado, qual acontecimento foi determinante para a sua vida, certamente que nos responderia “o encontro em Damasco!”. A vida do Apóstolo está toda marcada por aquele acontecimento. Teremos dificuldade em compreendê-lo, já que o próprio Paulo só na altura da morte é que compreendeu o significado daquele episódio. Provavelmente também nós só ao fim da nossa caminhada compreenderemos o significado do dom do baptismo.

Por outro lado, se é difícil começar de Damasco, por ser aquele episódio que tudo encerra e que só se pode compreender na análise das conversões subsequentes, é todavia certo que, para Paulo, foi lá que tudo começou.

O evento de Damasco é o momento propício para o perseguidor Paulo se travar e fazer marcha atrás, mudando de direcção. É a experiência da mudança de íntimo e de mentalidade; é a ocasião do regresso, de se dirigir para Deus. Mas Paulo não é pessoa que muda de estandarte: como cumpridor zeloso da Lei, que, a certa altura deitasse fora o seu zelo, a sua capacidade oratória, a sua incansável actividade, a serviço do novo estandarte de Cristo. Não se dá mudança de campo, mas sim apenas de viver a sua vida numa relação íntima e pessoal com Cristo, numa caminhada de discipulado.

 

Avaliação e programação do apostolado

 

No decorrer de todas as suas cartas, Paulo nunca diz muito sobre o acontecimento de Damasco, embora ele seja o acontecimento principal da sua história pessoal. Trata-se de algo tão precioso que até nós precisamos de nos aproximar com grande humildade e reverência, na convicção de que pouco percebemos do assunto, mas muito mais poderemos conhecer por graça de Deus. Então chegaremos a compreender-nos melhor a nós próprios, a caminhada da nossa vida e as nossas conversões.

Quando Paulo nos conta e descreve o acontecimento de Damasco, faz-se luz, para quem é chamado a avaliar o seu ímpeto apostólico a partir do dom e da acção de Deus:

Damasco foi “ver o Senhor” (cfr. 1 Cor 9, 1);

Damasco é uma revelação de Jesus e entrega duma missão: “escolheu-me…chamou-me…aprouve-Lhe revelar…para que O anunciasse” (cfr. Gál 1, 15-16);

Damasco é tempo de riqueza, da nova posse de Cristo, ao passo que o tempo anterior é descrito por ele como um estado de pobreza (cfr. Fil 3, 4-9): deu-se nele uma reavaliação completa de todo o seu mundo: aquilo que ele anteriormente considerava importante vale agora zero, nada lhe dizendo. Aquilo que anteriormente lhe parecia irrenunciável passou a mero lixo – porque o conhecimento de Cristo ganhou prioridade absoluta, tendo capacidade para o preencher por completo. O encontro, o conhecimento e a plenitude de Cristo acabam por fazer empalidecer os seus juízos e as suas avaliações.

 

Atitude

 

A atitude que devo assumir é a de me deixar interrogar pelo acontecimento de Paulo: Quando é que me converti? Existe na minha vida um “quando” da minha conversão a que me possa referir como momento realmente histórico?

Mesmo que não tenha havido um “quando” temporal, terá havido certamente momentos de mudança, de agitação, de crise, que levaram a uma compreensão nova do mistério  de Deus. É daqui que arranca a missão de Paulo e, portanto, a nossa conversão pastoral: Quais são os pontos-base do apostolado que faço? Como é que o Grupo de Vanguarda me ajuda nesta caminhada?

Se nunca chegámos a fazer esta mudança de mentalidade até ao fundo, que aliás é essencial para a vida cristã, nós ainda não teremos captado o significado da caminhada cristã”, a marcha-atrás que começámos a fazer no dia do nosso baptismo.

 

Gesto

 

Aquilo que eu quero realizar tem uma dimensão interior  e outra exterior.

A dimensão interior consiste em compreender que estou sempre a caminho. Paulo talvez estivesse enganado na direcção da sua caminhada, mas, pelo menos, tinha-se metido a caminho, com uma meta e objectivo precisos: chegar a Damasco e prender cristãos. Se porventura parei, dou-me conta hoje, no começo de mais um ano pastoral, que é preciso meter-me de novo a caminho, com uma meta e direcções exactas.

A dimensão exterior: provavelmente não ouvirei nenhuma voz vinda do céu. Mas, certamente, a Sagrada Escritura já estará a falar-me. Intimado a elaborar um Projecto de Vida, vou pegar já em papel e caneta para fazer o traçado das minhas metas pessoais bem como das metas associativas e apostólicas do Grupo para este ano pastoral.

 

Oração

 

Deus meu, ensinai-me que a vida é uma caminhada

e não uma estéril obediência a regras pré-formsdas,

nem uma falhada transgressão.

Ensinai-me a prestar atenção às pequenas coisas,

às passadas de quem caminha comigo

para que não se tornem mais compridas as minhas,

à palavra ouvida, para que não caia em terreno árido,

aos olhos de quem me acompanha

para adivinhar as tristezas

e me aproximar nos bicos dos pés

para encontrarmos, juntos, uma nova alegria.

Senhor, ensinai-me que a vida é caminhada,

o caminho sobre o qual caminhamos juntos

na simplicidade de sermos o que somos,

na serenidade das nossas limitações e pecados,

na alegria de tudo termos recebido de Vós, em Vosso grande amor.

Senhor, ensinai-me que a vida é caminhar convosco,

para aprendermos, como Vós, a darmo-nos por amor.

Vós que sois o caminho e a alegria.